14 novembro 2015
De-lira
14, pós sexta-feira agourenta,
descobri que a morte tem cheiro
Pestilento, diria
- confesso que procurei o almiscarado que me prometeram os poemas e romances -
de cocô incontido
de ferida infecta
de ramela seca que não se permitiu tirar
de 39,4ºC.
Descobri também que
a morte é simples e direta
sem grandes rodeios:
é só dor, sofrimento
e depois mais nada
é líquido leitoso e
pi - pi - piii..
É um grande cansaço que enfim termina
uma exaustão que espasma
e petrifica.
Enfim, soube que a morte
não fecha olhos
nem permite que as orelhas os cubram
fica ali, naquela constatação inerte de que a vida continua para além;
de que a vida corre
e que a tarefa dos vivos, no fim, é a constante
e perene
despedida.
--
P.S. Acho que, por último, a morte é a limpeza dolorosa desse odor
é a espuma do sabão em pó
que esfregamos com força no cimento, para tirar os rastros
da doença
da sofferenza;
é o polimento das lembranças
(uma sistematização, talvez)
despindo-as do cheiro acre e putrefato
da dor esquelética
de quem diz "pra mim já deu"
- eu só gostaria de ter entendido.
15 maio 2015
no vagão
Uma das crianças dorme, mais nova, sobre seu projeto de mochila. A outra, mais velha, está de pé e desligada.
Apita a chegada na estação. Os olhos da mãe entram em foco. A filha se põe alerta.
Portas abrem. Pessoas saem. Portas fecham.
Ambas relaxam, parcialmente.
'Próxima estação: ... ... Terminal Rodoviário Tietê'
A mulher sacode o filho adormecido. Um senhor ergue os olhos do jornal e bufa, em censura. Ela ignora, e coloca a criança de pé.
O trem pára e as crianças se desequilibram. Ela os puxa de volta, agarra a mala e marcha para fora.
Há tensão em seus ombros e pescoço.
'vamo logo. segura teu irmão. direito. não é pra soltar.'
'isso. agora me dá a mão. vem.'
Passam as catracas e ela agarra a mão da filha com mais força. O terminal é o mesmo formigueiro de sempre. Cheio de formigas desorientadas e enferrujadas da viagem. O cheiro é de gente.
Ela vai abrindo caminho e vai a uma guichê sonolenta. Compra duas passagens, depois de ralhar que pelo pequeno não ia pagar porcaria nenhuma.
Faltam vinte minutos.
A mulher olha ao redor, pega as crianças e vai até o caixa eletrônico. Tira todo o dinheiro que consegue e coloca no sutiã.
Descem para a plataforma. O mais novo senta em cima da mala e adormece de novo. A mais velha ajuda a mãe a preencher as passagens.
Os minutos passam aos trancos no relógio da estação. Elas analisam a plataforma.
Cinco minutos antes da partida o ônibus chega. A mulher enxota o filho e vai entregar a mala.
'cuida do teu irmão. e qualquer coisa grita'
Olha de relance a cada poucos segundos. Ela ainda está lá, segurando o braço do outro com firmeza.
Recebe o comprovante da mala e faz um gesto, eles se aproximam.
'Boa noite.' 'Boa noite.' 'Tem permissão de viagem?' 'O pai morreu' 'Tem certidão?' 'Não, moço, foi mês passado, ainda não saiu. Tem permissão de viagem antiga, serve?'
Ele hesita. 'Meus pêsames, dona'
'Que o Senhor o guarde. Posso subir?'
'Deixa eu ver a antiga pelo menos'
Ela vasculha a bolsa e entrega.
'Tudo bem. Pode subir'
'Obrigada, bom trabalho'
'Amém'
Acomoda os dois, põe o pequeno no colo e puxa a cortina.
10 julho 2014
CDA, Os ombros suportam o mundo.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
14 março 2014
Leminski, P.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
28 setembro 2013
mãe-pátria
que assistia TV e tinha um filho em missão de paz.
Orgulhosa ela era
orgulhosa permaneceu quando um oficial bateu na sua porta
e com pompa fúnebre transmitiu-lhe seus pêsames.
Com lágrimas de orgulho foi ao enterro
com o rosto sobriamente radiante beijou a bandeira que cobria a madeira
- morreu pela pátria
dizia
na madrugada do dia dezesseis -
e parecia insensível à dor e à dúvida.
Até que um dia foi notificada
que o último pagamento do filho estava no quartel para ser retirado.
Qual foi o seu choque quando, ao chegar,
viu que o pagamento parava no dia quinze.
31 agosto 2012
Samba Erudito - Paulo Vanzolini
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza
E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos
12 março 2012
13 dezembro 2011
...enquanto os patos vão pro sul
É curiosa essa sensação de migrante; e convenhamos, não é como se eu fosse o estereótipo, de mala e cuia para um mundo novo. Meu "mundo novo" se localiza a cem quilômetros de distância do "mundo velho" (se muito), e as interpenetrações desses mundos são muitas e frequentemente contínuas. Mesmo assim, surge esse negocinho estranho - essa aura de não-pertencimento a nenhum dos mundos, de deslocamento tanto aqui quanto ali. É um mal-estar de existir e de ter uma parte da sua história sem relação com o lugar onde se encontra - semelhante a ter um pedaço de si que não pertence àquele ambiente.
Refinando um pouco mais essa 'síndrome do migrante' é muito parecida - se não igual - àquele ranço de ver o tempo passando, de ver as coisas mudando: árvores de infância derrubadas, prédios no lugar de outros prédios, ruas que mudam de mão, pessoas que transformam em algo que você deixa de entender. É a síndrome de quero-que-o-mundo-fique-como-está, e que nada, nem ninguém, mude. É a dicotomia - pensando em um texto que li hoje - "[de se incomodar] com a intransigência da não repetição e com a intransigência da expectativa de repetição."
25 julho 2011
de instrumento a fim - fragmentos de raciocínio
robotização humana, ou seja, perda da experiência, da sociabilidade, da formação enquanto coletivo.
primazia da formação individual, do capital humano, maximização do tempo gasto com isso e com o tempo de produção.
perda da relação interpessoal & maximização da relação intercolegal.
tudo sob o disfarce do humano, do normal. photoshopização do robótico, ideologização da falta de vida. perder a vida através de um caminho irracional, de ausência de sentido. trocar a vida pelo capital, pela formação do capital, pela acumulação do capital, pelo consuno do capital, capital, capital.
és pecado(,) capital.
24 de junho
31 maio 2011
Into the wild (wild..?)
Excessivamente pensado e sem nenhuma conclusão aparente, esse inferno de conceito só nos atrapalha - essa necessidade infeliz de rotular coisas e pessoas, essa obsessão por tipologias, por leis gerais. É frustrante não haver um modelo para observar e encaixar as pessoas, para facilitar a lida com seres estranhos.
É a cretinice dos apartamentos, das pizzarias, da lógica estúpida que parece reger essa sociedade que lhe leva a perder a fé na espécie humana, a achar que uma epidemia poderia resolver o problema do planeta. Aí você esbarra num rosto sorridente - num foco de resistência à babaquice extremamente contagiosa que assola o mundo - e respira fundo, estala as articulações e aceita que existem pessoas bacanas por aí.
A identificação do problema que nos acomete ainda não se deu. É a lógica individualista derivada do 'capitalismo selvagem'? É o distanciamento dos outros seres humanos, é o centramento na própria sobrevivência? Temos mesmo essa capacidade de agir como ser social, sem tentarmos nos massacrar (politica, cultural, social, economicamente..?)? É a intolerância com o próximo?
O que é? Qual é o nosso problema, saco?
17 fevereiro 2011
16 junho 2010
que é isso maquinista?!
passa boiada
passa tudo
fica nada
fico eu
ali atrás,
bem no fundo,
um'incapaz.
25 abril 2010
you're such a good friend I have to break your heart
I'll tell you that I love you then I'll tear your world apart
just pretend I didn't tear your world apart
I wanted to say 'and I mean it', but it sounds so cruel...
anyway, pretend this is it, will you?
18 fevereiro 2010
(Não) se afobe, (não)
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Pedaço de Mim.
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
17 março 2009
Bell'nd Sebastian
Ooh! Get me away from here I'm dying Play me a song to set me free Nobody writes them like they used to So it may as well be me Here on my own now after hours Here on my own now on a bus Think of it this way You could either be successful or be us With our winning smiles, and us With our catchy tunes, and us Now we're photogenic You know, we don't stand a chance... Oh, I'll settle down with some old story About a boy who's just like me Thought there was love in everything and everyone You're so naive! After a while they always get it They always reach a sorry end Still it was worth it as I turned the pages solemnly, and then With a winning smile, the boy With naivety succeeds At the final moment, I cried I always cry at endings Oh, that wasn't what I meant to say at all From where I'm sitting, rain Washing against the lonely tenement Has set my mind to wander Into the windows of my lovers They never know unless I write "This is no declaration, I just thought I'd let you know goodbye" Said the hero in the story "It is mightier than swords I could kill you sure But I could only make you cry with these words" .
22 fevereiro 2009
bullets.
não me queira
não me afague
sentimento pegue-pague
emoção compre em tabletes
mastigue como um chiclete
e jogue fora na sarjeta
(quem vai querer comprar banana)
compre o ódio do futuro
cheque para trinta dias
nosso plano de seguro
cobre a sua carência
eu perdi o paraíso
mas ganhei inteligência
demência
felicidade
propriedade privada
não se prive
não se prove
don't tell me 'peace and love'
tome logo um engov pra curar sua ressaca
da modernidade
essa
armadilha matilha de cães raivosos e assustados
o presente não devolve o troco do passado
sofrimento não é amargura
tristeza não é pecado
lugar de ser feliz não é supermercado. (...)
31 janeiro 2009
estranhices.
PS. Hoje foi um dia estranho.
08 dezembro 2008
Can She Excuse My Wrongs (by John Dowland)
Eu mirava sua face transmutar-se no teto envolto em breu, seus olhos confiantes fitavam o público, sua voz transbordava em meus ouvidos.
'Shall I call her good when she proves unkind?'
O primeiro verso ainda ecoava nas curvas do meu labirinto, meu cérebro ainda ruminava a pergunta: can she excuse my wrongs? Estendi minha mão para fora da cama e peguei o celular. O rosto dela desaparecera nas vilosidades do lençol, assim que a luz do aparelho acionado retraiu minha pupila dolorosamente.
'Are those clear fires which vanish into smoke?'
Sem novas mensagens. Probably she can not excuse my wrongs, after all. She had vanished into smoke... Larguei o telefone no chão e virei-me para o outro lado.
'Must I praise the leaves where no fruit I find?'
Ao ouvir este excerto meus músculos enrijeceram, como se ela os dissesse com aquele ar cínico estampado no rosto e a voz fluindo como m/fel. ('No, no, where shadows do for bodies stand, thou may'st be abus'd if thy sight be dim?') Tateei o rádio em busca do botão de stop, mas a voz dela ainda inundava o meu breu, meu escuro, minha consciência.
'Cold love is like two words written on sand, or two bubbles which on the water swim'
Ela não parava, não me deixava contrargumentá-la, não me dava tempo suficiente para tomar ar entre aquelas pausas... Ah, o stop. O silêncio escorreu das caixas de som.
E eu, que deveria estar mais calmo, repetia em minha cabeça o primeiro verso, o primeiro trecho, tão renascentista, mas tão infinitamente perturbador, para mim.
She won't excuse my wrongs, my cold love, my "fruitlessness"... well, me. Cutuquei os botões do rádio e, com uma série já bem coordenada de movimentos, liguei a rádio e ouvi Raul Seixas se esgoelando em um 'não há nada neste mundo que eu não saiba demais'. Sorri, me acomodei e inexplicavelmente dormi.
27 outubro 2008
Olha Maria...
Ela lê muito, sabe... também estuda muito, até demais. Gosta muito de Artes, mas não larga as Exatas por causa disso. Não, meu caro, não sou eu; parece né? Eu sei...
Sabe o que aconteceu com Maria? Ela está apaixonada, ou pelo menos estava, por alguém que mal conversa, ela está (chegue mais perto, isso é meio pessoal) apaixonada por um estranho. Esse ser não tem pretendentes, não tem problemas (aparentemente...), exceto por se mostrar um introvertido convicto. Ecco, io sò che ricorderia di quello ragazzo anche di quella situazione dell'anno scorso. Mas não é a mesma coisa, ela está indecisa sobre a ambigüidade dos atos de seu afeto, não desolada pela impossibilidade. Está bem, fui uma covarde de não me pronunciar, de me manter de cabeça abaixada e olhos marejados enquanto o tempo passava; mas olha a Maria, ela está se 'desapaixonando' do mesmo jeito que fiz: da forma mais amarga e medrosa. Ela está encolhida no canto, com o imaginário rabo fazendo uma perfeita espiral entre as pernas. Ahn..? Ah, d'accordo, io sarò meno rude con lei. Mas me deixa frustrada ver algo se repetir tão ridiculamente. Esse sentimento (na falta de uma palavra melhor) de Maria seria tão frágil a ponto de sucumbir ao pavor por receber um 'não'? Se for, Maria, admita a si mesma, causará menos dor e te tomará menos tempo.
(Corre, Maria
Que a vida não espera
É uma primavera
Não podes perder)
Mas se pensas que isso que lhe aparvalha o ritmo da vida não é tão ignóbil, arrisque e quem sabe, petiscará. Ficar de jejum te deixará com uma ligeira dor, mas bilhões de pessoas existem, uma delas irá te 'apetecer'. Não deixe-nos a fitar o des-enredo do ano passado, mudemos qualquer coisa.
Por favor, não corra o risco de ser o objeto deste trecho.
"...Anda, Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer"