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10 outubro 2011

Sonhei que andava no jardim de uma embaixada, com bem-cuidados gramados, arbustos com formas geométricas e aquele ar de casa aristocrática de campo. Ao deitar-me ali, notei que o céu tinha riscos escuros e serpenteantes, como um afresco velho e rachado.

11 maio 2010

Um gato.

Você está em uma casa vazia e passa por um gato. Que gracinha. Abaixa-se para acariciá-lo e ele parece enlouquecer. Endemoniado, ele começa a arranhar tudo de você que está ao seu alcance. A dor é excruciante, você tenta afastá-lo com as mãos, ele as dilacera; você tenta afastá-lo com o pé, ele o rasga. Você corre pelo corredor vazio da casa, e ele vem no encalço, como que enganchado em sua pele da perna. A dor lhe faz perder o desejo de fazê-lo parar, e esse é substituído pelo desejo de matá-lo. Você consegue de alguma forma desvencilhá-lo da sua carne, e quando ele vem em sua direção, como que sedento, com um pulo você pisa nele com os dois pés.

'Morreu' você pensa. Não consegue ver, está com os pés em cima. Quando os levanta, vê que ele agora é cocô. Merda sólida, e que fica no chão, com seu formato típico - aquele não deformado pelos seus pés.

'Oh' diz você, 'virou cocô'.

Dói, e você vai embora.

11 abril 2008

Violinista.

Estava no mais frenético deslizar de dedos convulsos pela superfície preta e branca, em fortissimos e pianos, com o suor brotando dos poros, a face encabrunhada pela concentração sofrida. Sobre o final acorde, de fermata encabeçado, ele afastou os braços ainda vibrantes de esforço, com rapidez. Levantou-se do banco metendo-se debaixo do chuveiro de água fresca e da sombra da madrugada, ao apagar a luz.
O líquido invisível escorria sob sua pele.
E lá estava ele, de pé diante de uma multidão espectadora, aguardando de olhos vidrados. Cortinas vermelhas insinuavam-se na periferia de sua visão, e suas mãos seguravam uma lustrosa e leve peça de madeira. Pasmo, encarou todos aqueles homens elegantemente vestidos e mulheres de leques floreando. Vestido num terno bem ajustado, ele viu o fatídico problema, surgido em suas mãos, a ser consumado por um arquejar de crina de cavalo. Os dois fs o fitaram, inexpressivos. Onde estava o luzidio instrumento de cauda esparramada? Mai ha preso un violino per suonare. Come se fa adesso?
Pensamentos interpelavam-se à caminho da boca, que para não entrar moscas permaneceu bem fechada. De música, só o piano. Que raios faria com um violino na mão e um teatro esperando?
Um movimento furtivo captou-lhe a atenção. Um colega de piano, mirrado e tímido, entrou no palco carregando singelamente uma estante com uma imodesta partitura. Postando-a constrangido na sua frente, murmurou um constrangido 'sie ist einfach' sumindo em seguida. Sua mente registrou algo como 'pra você essa é bico'. Ele encarou a única clave e a enchente de notas, apreensivo. Posicionou o violino junto ao pescoço e preparou o arco. O teatro suspendeu a respiração. Pensando merda, falou scheisse e imaginando teclas, atacou as quatro cordas num fortissimo in-fusivo. Despejou a melodia galopante repetindo mentalmente que não sabia tocar violino e seu instrumento era piano. O som atravessava seus ouvidos sem deixar vestígio de continuidade. Mas o piano, o piano, só o piano...
A água começou a esquentar, sobressaltando-o. Um suave ronco interrompeu-se em sua boca. Tinha uma pedra sabão firmemente segura na altura do ombro.

(baseado num sonho real :])