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17 março 2021

Formas de marcar o tempo


Subtrair doze minutos do contador do microondas
- que corre mais que
as pernas dos segundos -
rubato

saber do número de mortos do dia
do mês da 
pandemia
pesante

contar os comprimidos restantes da cartela
ritenuto

ouvir os chamados da cachorra para a noite se nos debruçar 
e com ela o tropel descompassado
de andante noturno
presto

descartar o relógio de movimento
que parou na semana 1 ano 1
fermata

sentir o pó sobre a superfície de trabalho
ritornello

ouvir o caminhão hospitalar
esfregando a entrada de pedestres
na descalada da noite
sforzato

calcular o tempo
temperatura gramatura
do impasto
a tempo

desenhar agendas semanais
às segundas
para ir riscando
tarefa-a-tarefa-a-periodo-a-periodo
da capo

26 novembro 2018

Dear John,

Some weeks ago I wrote you a letter
it felt like running backwards
to a time and place that bore little resemblance to what I thought I was
for that I used to travel so much
through words and images and symbols
I scarcely felt alone
as I was constantly moving and had hordes of characters hanging around.

Living since has been feeling like stepping further into a sticky
stinky slimy mud
Entering the Nothingness of a world of
reasonable thought and (sometimes polite) savageness
in which all my fellows cannot follow me.
I think I disgust them
all covered in realistic boredom and
crude stillness.

Dear John,
Sometimes I feel the urge of writing
but it soon fades
as so many people and creatures did
(you included)
then I am assaulted by shame
and embarrassment
of being unable to cope with this evermounting
reality
Also, incapable of fantasizing
I've turned you, so concrete and real (somewhere
out there)
into an old phantom

(maybe this time you won't disappear when needed)

02 maio 2016

Já não há mais coração

A cólica reprimida pelos comprimidos, a dor das amígdalas pelo ardido do gengibre mascado, a dos ouvidos pela

zabumba q'bumba esquisito
batendo dentro do peito

Mas o tempo não se deixa enganar. Ele não sai pipocando atrás dos aflitos; segue seu próprio ritmo, e deixa a gente, iludido, achando que não tem jeito, que é assim mesmo.

E as dores abafadas como o trânsito do lado de lá do vidro. Presentes. Latentes.

13 janeiro 2016

A intimidade estava latente,

...Sib observou, enquanto bebericava aquele café com leite metido a macchiato. Um passo em falso e o passado desabaria sobre ambos. Parte dele, ao menos.
Para ele, uma chuva de verão. Para Sibilla, outro dilúvio.

A cumplicidade estava na curva da boca, pinicando. Mas o sorriso - ah, esse foi tão somente sarcástico.

06 maio 2014

Insone II

uma da manhã
ouves a ausência dos ônibus
dos carros
das rodas
não tem gente no buteco
sobra só um cutucar de papelão lá embaixo
ninguém fala
pode ser um cachorro
um gato, um trem qualquer

o silêncio da rua amplifica inunda ensurdece
o vidro quebrado da janela não dissipa o calor do quarto
realça tão só o arrepio

o relógio na cozinha estoca

a cama morna
o vazio imóvel

tudo acabado o baile encerrado atordoado
e o sono..
que sono?

05 maio 2014

Insone

Então pensa nela, desgraçada!
vai, pensa!
em cada sarda no brilho do sol nas íris no cabelo cabelo em cascata
vai, pensa!
chafurda nessa merda
se refestela na ausência
no pretérito mais que forçado

vai, esfrega sal na ferida
você já não consegue dormir de qualquer jeito
e insiste em enxergá-la em cada uma que passa
para seu dia esfrangalhar por nanossegundos

admita: tudo que você quer é vê-la tê-la
(sim)
seja ao menos uma abstinente responsável
e não se jogue de volta à primeira casa do tabuleiro

é longo duro odioso
mas se não o quê?
sê-la à sua imagem e semelhança?
me poupe
nos poupe
mas acima de tudo se poupe.

29 agosto 2011

Paulo

és maltrapilho
insanto estuprado
cujo altar jaz entre lixos e fedores;
foste esquecido pelos religiosos
agora veneradores de outros santos
e que correm atrás da vida impecável
(ainda que pestilenta e oca);
és venerado tão somente pelos in-sãos, abandonados pelas sarjetas
aos seus cuidados de enfermo.

És santo moderno
martirizado pelo câncer de suas células indiferentes
(não revoltosas, não subversivas - não lhes falte com respeito)
que lhe cruzam o corpo purulento em agoniante pressa,
buscando
coletando a mais nova deidade
para adicionar ao seu catálogo indivirtual.

13 fevereiro 2011

Mote: Under the stairs.

Depois da morte de meu avô, mudei-me para sua casa. Neto de filha única, e desesperado para sair da casa de minha mãe, convenci-a de não vender o imóvel vazio e me mudei. O pretexto era ótimo – era mais próximo da universidade.
A entrada foi menos triunfal do que planejara. A casa caía aos pedaços, em seu mudo sofrimento – ou nem tão mudo assim. Fechaduras, maçanetas, dobradiças, piso, escada, tudo gemia dolorosamente se tirado do seu coma catatônico. A casa tinha artrite, como tivera meu avô.

As primeiras medidas foram as emergenciais; hidráulica e elétrica entraram nos eixos, e então o dinheiro acabou. As parcas finanças de um pós-graduando não eram suficientes, e o descontentamento de minha mãe com a situação constrangia-me a não pedir dinheiro. Resolvi reformar o resto por conta e risco – mas o resto podia esperar. Fazer uma lavagem cerebral nas lembranças da casa era urgente. Comecei pela sala, subi as escadas – quartos, banheiro –, desci as escadas – cozinha, despensa. Por fim sobrou o vão da escada.

Meu avô costumava passar muito tempo por lá, mas desde que passara a morar sozinho não deixara mais ninguém entrar. Lembro-me de sua fúria no dia em que roubei-lhe as chaves para explorar aquele recanto proibido, que instigava minha curiosidade. O estalo alto da fechadura acordou-o do sono sesteiro; seus safanões me prostraram no chão, e, bufando, ele arrancou-me as chaves e sumiu de vista. Alguns dias mais tarde, tentei abrir com grampos e clips, mas a vida não é tão simples quanto as ficções (televisivas ou literárias) insistem em nos demonstrar – aliás, sequer conheci alguém que tivesse conseguido abrir fechaduras desse jeito. Seja como for, depois de algumas tentativas desisti, e acabei arrajando alguma outra coisa para me ocupar.

Aquela chave nunca mais vi, nem mesmo na minha minuciosa varredura pela casa. Para não estragar a porta tentando arrombá-la, passei quentes horas de uma manhã encarrapitado em um banquinho bambo, tentando desparafusar a maçaneta; os parafusos enferrujados deram-me muito trabalho, mas por fim foram retirados. Cansado da tarefa e desejoso de estimular um pouco mais aquela réstia de curiosidade infantil, não abri a porta – dirigi-me à cozinha, onde abri uma cerveja e deitei-me no chão gasto de cerâmica, para esfriar o corpo. Ali fiquei estatelado, ouvindo o vento roçando coisas e tentando identificar o que seriam – o bochorno era insuportável, provavelmente choveria mais tarde. Adormeci.

Acordei com a chuva. Uma brisa fresca entrava pela janela e o som era manso. Levantei-me, comi qualquer porcaria e fui desvendar o vão da escada. Puxei a porta pelo buraco deixado pela maçaneta – estava emperrada. Puxei-a com mais força – ouvi um barulho seco de madeira sofrendo. Parei; o propósito daquela manhã fora não estragar a porta. Enfiei a mão pelo buraco novamente, tentando distribuir melhor a força em uma área maior – a madeira gemeu e abriu, com um solavanco.
Espiei. Não havia nada à vista, alguns rastros de passos, já meio escondidos por novas camadas de poeira e poucas caixas fechadas, empilhadas em um canto. Peguei-as – eram leves, estavam vazias.

Vazias. E cheias de pó.

20 janeiro 2011

Heart-to-heart

I wish I could literally cry my heart out. Maybe, after swallowing, I'd feel things differently. Cold-heartedly would be a good solution... unless I could remain heartless. This certainly would be better - it wouldn't pressure my inside as if it were going to explode.

09 janeiro 2011

Nonsense.

Alice bebia bosta cozida com caroços de damasco (dificílimos de engolir eram eles) enquanto espiava formas fumegando – a fogueira fustigava-as, fazendo-as fumaçarem gases gordurosos (galgavam o grotesco galpão, grudando e gotejando, hediondamente). Há horas Henrique, híspido e hesitante, helenizara o habitat, induzindo indivíduos, imaculados e iludidos, informarem a inteira impossibilidade (inclusive impondo joguetes júnicos), já jubilantemente jactada (jovens Josés jiboiaram, judicaram e jugaram longamente), de levar loucos e lúdicos livros, leigos às lôbregas lidas Licaânicas, aos lascivos libertinos.
Mesmo mordiscando merda modorrentamente, a menina mensurava as módicas modificações modeladas meio à moda megárica.

* Júnicos - relativos à Juno;
* Licaânicas - relativas à Licaão.

14 julho 2010

olha aqui...

...da próxima vez, Solidão, bata na porta antes de entrar. Não aguento mais esse lance de você se infiltrar como quem não quer nada, como se fosse um gás.
Sua insípida.
By the way, odeio esse seu hábito de me tirar o gosto das coisas. Se tem uma coisa que eu adoro é comer, e me deixar com essa sensação de gosto de cabo de guarda chuva na boca é muito pouco sensível da sua parte.
Antes que eu me esqueça, me devolva a Vontade de Escrever, porque ela anda a fazer falta.
E sim, vai tomar no cu.

08 fevereiro 2010

In dictatorship's basements...

'Was there much pain?' it asked tediously. Why should only it make the question, though there were more than a dozen 'its' around him, waiting for the next one to cross the closed door of the chamber and listen to the same torture story? Inside the chamber the yells had stopped some minutes before, which made all of them gather together and wait for it to come out. And it came.
'Did I die?' it put to in response. It seemed awkward and confused with its new foggy body. 'Have I just crossed the door's wood?' it came closer and shrunk as a thunder voice commanded from the chamber 'Bring the next one!'.
'Yes' replied the first one '…and yes' it completed. 'We're something like a… ghost, I dare say. Why had they arrested you?'
'I had sheltered the leader of the socialist guerilla' it shrugged. 'Can we haunt them?'
'No'
'Ah, what a shame'
'They can't see us. And we can't touch things'
'Ah' it seemed disappointed.
'What did they do to you?' asked shyly another one that hadn't spoken yet.
'Oh…' it thought a little. 'I think they used everything on that chamber and also in the chamber number eight'
'Oh, that's bad'
'Indeed'
'Dictatorship sucks' said another one, smaller than the others.
'How old were you, my dear?' asked the newcomer.
'I was twelve years old'
'That young?'
'Yeah, they caught me too because my parents were communists'
They remained silent.
'Look, there's someone coming to be done for' pointed the spokesghost. 'Could one of you guys ask it this time? I'm sick of doing this'
'But you're our spokesman' said another 'or sposkesghost, spokesdead, whatever'
'We could choose other ghost to do it, instead of me' it replied, hopefully.
'Ok, I can do it, for now' said the newcomer.
They went silent again and inside the chamber the screams started once more.

'Wow, this one was fast' commented the little it when the yells stopped.
'Indeed. Newcomer, it'll be coming in a few moments' warned the ex-spokesghost.
A hazy silhouette came through the wooden door. 'Here we go' murmured the new spokesghost and said, loud and clear 'Was there much pain?'

29 outubro 2009

Unicamp 2007

...Com o auxílio de elementos presentes na coletânea, trabalhe sua narrativa a partir do seguinte recorte temático: Os meios de transporte sempre alimentaram o imaginário das pessoas em todas as fases da vida. Desde a infância, os brinquedos e jogos exprimem e estimulam esse imaginário
Instruções
1) Imagine a história de um(a) personagem que, na infância, era fascinado(a) por um brinquedo ou jogo representativo de um meio de transporte.
2) Narre a origem do encanto pelo brinquedo e o significado (positivo ou negativo) que esse encanto teve na vida adulto do(a) personagem.
3) Sua história pode ser narrada em primeira ou terceira pessoa.

Pois bem...

__O garoto se esgueirava para fora da cozinha alvoroçada segurando com firmeza contra si um pedaço amarrotado de papel e um de carvão, a enegrecer-lhe a mão e a camisola de linho cru. Como ninguém lhe prestou atenção, ele rumou para os fundos de uma pequena capela. Nessa área mais afastada do jardim, túmulos de mármore restavam onde o sol ainda não alcançara. Ervas daninhas cresciam por entre as lajes e insetos prenunciavam um dia de verão. O menino içou seu corpo diminuto para cima de uma das pedras e ficou ali sentado, ouvindo os sons da casa a se espreguiçar.
__Conforme o sol avançou, os raios iluminaram as pernas alvas do garoto, que agora se ocupava de examinar uma curiosa planta balouçante sob a brisa morna, cuja persistência desfazia suas flores em pequenos flocos brancos, fazendo-as flutuar no ligeiro vento.
__Ele apanhou o papel amarfanhado e, após uma alisada, pôs-se a desenhar a inédita planta. Percebeu neste momento que aquelas lindas partículas dançarinas lembravam-no de homenzinhos voadores, fazendo seu exótico baile no ar. Aquilo imediatamente o animou - imagine que lindo seria se os homens pudessem voar..! Com isso em mente, passou a rabiscar no verso homens alados - com asas de cera (como as de Ícaro), com asas de madeira, com asas de tecido...
__Feito isso, partiu pelos jardins em busca da tal planta. Um criado esbaforido deu por encontrá-lo no meio das flores, a rodopiá-las girando-lhes o caule, com olhos brilhantes de vivacidade e um sorriso espreitando-lhe os lábios.
__Para o estarrecimento de seu maestro, tanto naquele dia como nos vindouros, indagou-lhe minuciosamente sobre homens voadores. A pouca disposição do maestro, todavia, sepultou aos poucos suas confabulações.

__Estava em seu estúdio a procurar um antigo estudo seu de anatomia, a coçar a barba de quando em vez e a abrir baús, quando se deparou com alguns rabiscos. Já eram velhos, pois o papel rasgava em pontos diversos. Com um sorriso, reconheceu o seu traço juvenil e vislumbrou o rascunho de uma planta que sempre o recordava de Ícaro, de asas e de bailarinos celestes. Espiou mais alguns desenhos, mas as flores rodopiantes não lhe saíam da mente. Imaginou então um homem agarrado ao cabo de uma flor imensa que girava feito uma hélice. Seu sorriso se expandiu sutilmente. E se..?
__Leonardo deu as costas ao seu estudo perdido de anatomia e encostou a porta. Em seguida, o homem de Vinci sentou-se à mesa e apanhou um novo papel.