29 agosto 2016
à livre opção sexual
vamo mais rápido que tem uns caras estranhos atrás da gente
beija eu, não beija ela
vocês não tem vergonha?!
fala mais baixo, é minha mãe
nossa mas boceta fede, como você consegue
ela é só uma amiga
deus me livre de namorado
pelo menos você não precisa se preocupar com contracepção
nossa mas você nem parece
não, que eu saiba não tem profilaxia
até eu pareço mais fancha que você
todas nós estamos sozinhas, não é exclusividade
você era mesmo meio moleque
precisamos defender a livre opção sexual
aaa..o meu ex- era de lá também
hoje é dia de
02 junho 2016
31 maio 2016
No prédio à frente há uma mulher parada diante da janela. A janela parece fechada, seus cabelos não se movem. Ela come algo de uma cuia, com palitos.
Hashi, me sussurra Ab. Aquiesço, me desvencilhando de sua lembrança.
Hashis, then.
Ela olha fixamente para algum ponto, encolhida como que fustigada pelo vento. Do lado de fora.
Dentro do seu aquário, ri Ab. Te lembra alguém?
Não me dou ao trabalho de responder.
Até as olheiras, Sib, olha ali...
Aham. Amasso a bituca e largo no parapeito. Fechando a janela para entrar, vejo-a pela última vez, imóvel, olhando para o nada.
Pior que parecia mesmo.
11 junho 2015
O estranho dia em que os motoristas de ônibus se tornaram cegos aos passageiros.
19 março 2015
TIERRA, Pedro. Poema - Prólogo
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
Em cinco séculos
reconstruí minha esperança.
A faca do verso feriu-me a boca
e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
Fui poeta
do povo da noite
como um grito de metal fundido.
Fui poeta
como uma arma
para sobreviver
e sobrevivi.
Companheira,
se alguém perguntar por mim:
sou o poeta que busca
converter a noite em semente,
o poeta que se alimenta
do teu amor de vigília
e silêncio
e bebeu no próprio sangue
o ódio dos opressores.
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.
Sou o poeta
dos torturados,
dos “desaparecidos”,
dos atirados ao mar,
sou os olhos atentos
sobre o crime.
Companheira,
virão perguntar por mim.
Recorda o primeiro poema
que lhe deixei entre os dedos
e dize a eles
como quem acende fogueiras
num país ainda em sombras:
meu ofício sobre a terra
é ressuscitar os mortos
e apontar a cara dos assassinos.
Porque a noite não anoitece sozinha.
Há mãos armadas de açoite
retalhando em pedaços
o fogo do sol
e o corpo dos lutadores.
Venho falar
pela boca de meus mortos.
Sou poeta-testemunha,
poeta da geração de sonho
e sangue
sobre as ruas de meu país.
Sobreviveremos
Perdemos a noção do tempo.
A luz nos vem da última lâmpada,
coada pela multidão de sombras.
A própria voz dos companheiros tarda,
como se viesse de muito longe,
como se a sombra lhe roubasse o corte.
Nessa noite parada sobrevivemos.
Ficou-nos a palavra, embora reprimida.
Mas o murmúrio denuncia que a vitória
não foi completa. Dobra o silêncio
e envia o abraço de alguém
cujo rosto nunca vimos e, todavia, amamos.
Nessa noite parada sobrevivemos.
Sobreviveremos.
Ficou-nos a crença, de resto, inestinguível,
na manhã proibida.
(74)
(pseudônimo de Hamilton Pereira)
23 março 2013
Voler bene
27 janeiro 2013
Notte d'estate
A Filha percorre os corredores da casa (chega à sala oposta) com pressa; abre o piano e verifica uma nota que cantarolava. Si natural. Urra para o outro lado da casa e fecha o piano; o Pai, do outro lado, aquiesce aos gritos.
A cadela arranha a porta da área de serviço.
A Filha vai para o banheiro, tira as lentes do olho, lava o rosto. Segue então para o quarto. No escuro, ouve uma gota cair com estrépito. Tateia a parede e acende a luz. Há uma goteira. Põe o pijama e os chinelos e vai para a cozinha. A cã está encarando a porta, vê-se o contorno no vidro granulado. A Filha abre a porta para pegar um balde e a cachorra, feliz, pula. A garota afaga, fala com a pequena com voz aguda e imbecil, e percebe que ela está molhada. Suspira. Chega perto da casinha, e remexe na pilha de panos de chão. Escolhe um balde e apanha dois trapos. Seca a cachorra, que, extasiada, se eriça e se sente coçar.
Uma cã centrifugada, um balde e um pano na mão.
"Boa noite"
E fecha a porta. Bebe água, apaga a luz e segue para o quarto.
28 março 2012
CineMinuto 3
P1 está com uma cestinha de compras e desloca-se para a fila. Está cautelosa, tenta não esbarrar em ninguém nem nas prateleiras abarrotadas. Na sua frente está um velhinho, P2, que carrega uns maços de hortaliças.
Ruídos do ambiente.
P2 se vira para P1. Agita um maço de nira em sua direção.
P2: Nira... nao bon, ne!
P1 (tenta ser simpática): Ah, não? Mas ele está tão bonito..!
P2: Nao compra nira!
P1: Mas por quê?
Pausa. P2 aproxima o maço do nariz, inspira e agita o nira de novo.
P2 franze o cenho: ...
...Química, ne!
P1 demonstra compreendê-lo.
Segurança, P3: Senhor, o caixa 5 está livre.
P2 vira-se para encará-lo: ...Hai!
e se afasta.
19 novembro 2011
às vezes
A vontade é entrar em estado catatônico, porque o sono não vem mais.
E essas vezes têm sido frequentes demais.
31 julho 2011
Ma la messa non la lasciava stare, anzi, suonava nella sua mente con tutte le forze, fragorosa, impetuosa. Aveva provato iniziare il suo MP4 – era scaricato; aveva cercato quelle musiche infernali (anche se questa non sarebbe la parola proprio giusta) in internet, senza risultati.
Era un po' impacciata, ed un bel tanto confusa. Stava lì, ferma, sola, a stringere le mascelle.
06 julho 2011
Ode ao pássaro morto
dessas saltitantes, alvo de mil preocupações
“merda, será que eu passei por cima?”.
Agora, mero monte amorfo de plumas
incrustrado no asfalto.
Poderia muito bem se passar por um bolo de sujeira
daquelas que se tira de debaixo da cama.
15 abril 2011
...che voy hacer, je suis perdu
Ma, doppo un test, tutto si è risolto. Il mondo ha ritornato, ruotando a tutta velocità. La birra è diventata più fredda, suo sapore è diventato più forte. Non è stato il test, ma qualcosa ha scoppiettato.
ただいま.
11 agosto 2010
Santos
Lá longe há uma cidade. Uma cidade de containers, de ratos, de cascos com cracas, de sujeira. Talvez um punhado de humanos. Uma cidade de luzes, mergulhada no (m)ar salobro, tênue na cisão entre fluidos salgados.
No escuro, ela até parece frágil. Na claridade latejante e nublada, parece um tributo. Sabe-se lá ao quê.
31 julho 2010
Ele
é incrível ainda como se exaspera com essas situações, embora vividas, revividas, tetravividas - parecem sempre novas, como se fosse a primeira vez que o tango se misturasse ao ar.
sensação velha e surpresa ao se deparar com ela.
08 março 2010
Olhos nos olhos.
Os olhos voltados para o que vem de cima, a expressão vazia, ma non troppo. Não se vê nessas estátuas a inexpressividade, mas a conjunção com o divino, ou o sofrimento pedindo socorro, ou o cansaço terreno no ato de suspirar. A mescla de tantos olhares em uma expressão quase vazia, tão comum às esculturas, às estátuas, à pedra.
Mas desta vez o olhar não vinha da pedra, nem do gesso, nem de algo inanimado. Os olhos exaustos transpassavam o chão-teto do apartamento, olhavam mais para cima, para mais além, mais além. Era aquele olhar vindo de olhos umidecidos de dor e vasos estourados, que sustentava ao redor de si a pele já pendente em rugas, as bolsas inchadas ao redor dos olhos. Respirava com dificuldade.
Era um olhar de estátua numa escultura de carne e osso. E arfava. E sofria.
15 outubro 2009
MinutoMetragem
Obs.: Os personagens não têm necessariamente a ver comigo.
Teto de um ginásio de alumínio. Borrões vermelhos e brancos se deslocam pela superfície metálica. Sons de gritos, ecos, barulho de gente e bola correndo vão surgindo num crescendo até o volume habitual.
Voz em off (abafada) - P1: ...são essas pessoas que vão ser a elite da nossa sociedade em dez, quinze anos; a elite adepta ao PIG, como os pais, todos repugnantes. Eles vão estar basicamente iguais, com os mesmos planos mesquinhos para o fim de semana, com as mesmas brincadeiras. Estúpidas. Agressivas. Neofascistas...
Voz masculina se destaca da gritaria: Ô Bu(n)da!..
P1 se cala.
P1 (normal, não mais abafada), hesitante: Buda..?
Imagem desce para os jogadores, ângulo da câmera como uma pessoa deitada na arquibancada. Risada em off (de P2).
P2 em off (rindo): O quê? Buda?
P1 em off: Alguém falou Buda?
Câmera se movimenta e endireita.
P2 em off: Deve ter sido Bunda.
Garoto gordo do time escorrega no piso molhado de suor e cai. Caçoam dele, do Bunda.
P1 em off: Ah... (Silêncio. Câmera deita de novo e aponta para o teto) que calor...
Vozes vão esvanecendo e pálpebras vão se fechando enquanto P1 resmunga
P1 em off (abafada): Buda? Esses imbecis não sabem o que é Buda, devem achar que budismo hinduísmo fenshui é tudo a mesma coisa. Bando de ignorantes, os anabolizantes devem ter explodido os neurônios deles... digo, só deve ter sobrado o Tico e o Teco, com um mataburro entre eles...
29 março 2009
Olhos nos olhos [quero ver... o que você faz]
eu só fico olhando, e vendo você me ver. e é isso.
na verdade, tenho medo de acreditar no que eu possa ter visto através deles.
17 março 2009
Bell'nd Sebastian
Ooh! Get me away from here I'm dying Play me a song to set me free Nobody writes them like they used to So it may as well be me Here on my own now after hours Here on my own now on a bus Think of it this way You could either be successful or be us With our winning smiles, and us With our catchy tunes, and us Now we're photogenic You know, we don't stand a chance... Oh, I'll settle down with some old story About a boy who's just like me Thought there was love in everything and everyone You're so naive! After a while they always get it They always reach a sorry end Still it was worth it as I turned the pages solemnly, and then With a winning smile, the boy With naivety succeeds At the final moment, I cried I always cry at endings Oh, that wasn't what I meant to say at all From where I'm sitting, rain Washing against the lonely tenement Has set my mind to wander Into the windows of my lovers They never know unless I write "This is no declaration, I just thought I'd let you know goodbye" Said the hero in the story "It is mightier than swords I could kill you sure But I could only make you cry with these words" .
25 fevereiro 2009
isso nunca tinha acontecido.
ok, isso é óbvio.
I mean... deitada daquele jeito, eu podia até senti-lo do meu lado, no escuro, com o braço me servindo de travesseiro; podia ouvir sua respiração morna.
ou talvez eu simplesmente estivesse começando a dormir. ou a alucinar.
quiçá.
31 janeiro 2009
estranhices.
PS. Hoje foi um dia estranho.