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02 junho 2016

Ela tem passado bastante tempo nessa janela, hein, comentou Ab, se divertindo com minha minúcia em limpar o LP antes de colocar a agulha. Sentado no parapeito, ele deu seus três tragos antes de expirá-los, também em tríade.

Uhm. Um som choroso invadiu o ar.

E você anda um bocado obcecada com essa Opfer, tudo isso é ela?

Capaz. Esse cânon não pára de tocar.

Perpetuum, riu ele. Lembro-me quando ele terminou a Musikalische Opfer, sujeito interessante, ele era. Um pouco excêntrico, como nós, Pequena. Pena que não vingou muito na época. Balançou a perna três vezes e pulou para dentro.
Olhou de esguelho para a guria antes de entrar. È lontan lontano, quella.

Eh, infatti. E come risona qua dentro.

Há essas mentes que vibram na mesma frequência - sabemos disso, não?

Eccome.

Estou faminto, minha querida, vou buscar algo. Apanhou a bengala e, descerrando três vezes a porta, saiu.


É, moça. Essas pessoas não nos deixam. Levantei para fechar os vidros e a cortina e me aninhei nas almofadas, ouvindo a agulha deslizar.

31 maio 2016

Abri as janelas e acendi o cigarro. Venta muito.

No prédio à frente há uma mulher parada diante da janela. A janela parece fechada, seus cabelos não se movem. Ela come algo de uma cuia, com palitos.

Hashi, me sussurra Ab. Aquiesço, me desvencilhando de sua lembrança.
Hashis, then.

Ela olha fixamente para algum ponto, encolhida como que fustigada pelo vento. Do lado de fora.

Dentro do seu aquário, ri Ab. Te lembra alguém?

Não me dou ao trabalho de responder.

Até as olheiras, Sib, olha ali...

Aham. Amasso a bituca e largo no parapeito. Fechando a janela para entrar, vejo-a pela última vez, imóvel, olhando para o nada.

Pior que parecia mesmo.