uma da manhã
ouves a ausência dos ônibus
dos carros
das rodas
não tem gente no buteco
sobra só um cutucar de papelão lá embaixo
ninguém fala
pode ser um cachorro
um gato, um trem qualquer
o silêncio da rua amplifica inunda ensurdece
o vidro quebrado da janela não dissipa o calor do quarto
realça tão só o arrepio
o relógio na cozinha estoca
a cama morna
o vazio imóvel
tudo acabado o baile encerrado atordoado
e o sono..
que sono?
06 maio 2014
05 maio 2014
Insone
Então pensa nela, desgraçada!
vai, pensa!
em cada sarda no brilho do sol nas íris no cabelo cabelo em cascata
vai, pensa!
chafurda nessa merda
se refestela na ausência
no pretérito mais que forçado
vai, esfrega sal na ferida
você já não consegue dormir de qualquer jeito
e insiste em enxergá-la em cada uma que passa
para seu dia esfrangalhar por nanossegundos
admita: tudo que você quer é vê-la tê-la
(sim)
seja ao menos uma abstinente responsável
e não se jogue de volta à primeira casa do tabuleiro
é longo duro odioso
mas se não o quê?
sê-la à sua imagem e semelhança?
me poupe
nos poupe
mas acima de tudo se poupe.
vai, pensa!
em cada sarda no brilho do sol nas íris no cabelo cabelo em cascata
vai, pensa!
chafurda nessa merda
se refestela na ausência
no pretérito mais que forçado
vai, esfrega sal na ferida
você já não consegue dormir de qualquer jeito
e insiste em enxergá-la em cada uma que passa
para seu dia esfrangalhar por nanossegundos
admita: tudo que você quer é vê-la tê-la
(sim)
seja ao menos uma abstinente responsável
e não se jogue de volta à primeira casa do tabuleiro
é longo duro odioso
mas se não o quê?
sê-la à sua imagem e semelhança?
me poupe
nos poupe
mas acima de tudo se poupe.
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03 abril 2014
14 março 2014
Leminski, P.
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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15 fevereiro 2014
A sentado
Era como a maré alta. As ondulações iam e vinham, o resultado era uma gradual mas constante expansão. Não que ele fosse um entendido de mares, longe disso, seu elemento era o solo, pisava só em terra firme.
Ou era como o aquecimento global, a engolir as pequenas ilhas, refletiu. O sol nascia, mas ainda sem ultrapassar o emaranhado dos galhos dos eucaliptos. Jorge arrastou a leiteira vazia e acomodou-a na garupa da moto. O dia começava, mas a luta não findava, assim como o leite se repunha manhã a manhã. E lá ia ele, todo santo dia. A resistir. A garantir a vida, naquele cerco de deserto verde, cada dia mais próximo.
28 setembro 2013
mãe-pátria
Era uma vez uma mãe
que assistia TV e tinha um filho em missão de paz.
Orgulhosa ela era
orgulhosa permaneceu quando um oficial bateu na sua porta
e com pompa fúnebre transmitiu-lhe seus pêsames.
Com lágrimas de orgulho foi ao enterro
com o rosto sobriamente radiante beijou a bandeira que cobria a madeira
- morreu pela pátria
dizia
na madrugada do dia dezesseis -
e parecia insensível à dor e à dúvida.
Até que um dia foi notificada
que o último pagamento do filho estava no quartel para ser retirado.
Qual foi o seu choque quando, ao chegar,
viu que o pagamento parava no dia quinze.
que assistia TV e tinha um filho em missão de paz.
Orgulhosa ela era
orgulhosa permaneceu quando um oficial bateu na sua porta
e com pompa fúnebre transmitiu-lhe seus pêsames.
Com lágrimas de orgulho foi ao enterro
com o rosto sobriamente radiante beijou a bandeira que cobria a madeira
- morreu pela pátria
dizia
na madrugada do dia dezesseis -
e parecia insensível à dor e à dúvida.
Até que um dia foi notificada
que o último pagamento do filho estava no quartel para ser retirado.
Qual foi o seu choque quando, ao chegar,
viu que o pagamento parava no dia quinze.
22 setembro 2013
A todos os Atlas
Às vezes eu penso no Atlas
sozinho segurando o mundo
...ou segurando seu sozinho do mundo?
Sentiria ele a presença do mundo ao redor?
Ou seria ele só mais um dos que andam pelas ruas
carregando nas costas um mundo?
Qualquer sozinho
é um mundo de peso.
Qualquer mundo
é uma pena sozinho.
sozinho segurando o mundo
...ou segurando seu sozinho do mundo?
Sentiria ele a presença do mundo ao redor?
Ou seria ele só mais um dos que andam pelas ruas
carregando nas costas um mundo?
Qualquer sozinho
é um mundo de peso.
Qualquer mundo
é uma pena sozinho.
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19 setembro 2013
vivento
vi o vento
quando avoada ouvia você
falar sobre cousas loucas da vida
ele era mirrado, tímido e discreto
mas sorriu ao passar.
quando avoada ouvia você
falar sobre cousas loucas da vida
ele era mirrado, tímido e discreto
mas sorriu ao passar.
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Por mote
07 julho 2013
Irresoluto
Uma vida de relações inacabadas... Tantas pontas soltas que não se acha mais o fio principal (há?)
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Devaneios
24 março 2013
SANT'ANNA, Affonso R. Assombros
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
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23 março 2013
Voler bene
A Itália vai me cativando aos poucos. É constante, como uma amante fiel e paciente. Ela se mostra, discretamente, nos pequenos gestos: em um relance de olhos verdes, em um arco velho de túnel, em uma paisagem esvoaçante da janela do trem, nos seus prédios que suplicam por uma reforma. Ela chama na dureza delicada do acolhimento do arcaico no dia-a-dia.
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Relatos.
27 janeiro 2013
Notte d'estate
É noite, e chove. A família entra em casa, vê a cachorra a esperar defronte à porta de vidro da sala. Ela molha-se.
A Filha percorre os corredores da casa (chega à sala oposta) com pressa; abre o piano e verifica uma nota que cantarolava. Si natural. Urra para o outro lado da casa e fecha o piano; o Pai, do outro lado, aquiesce aos gritos.
A cadela arranha a porta da área de serviço.
A Filha vai para o banheiro, tira as lentes do olho, lava o rosto. Segue então para o quarto. No escuro, ouve uma gota cair com estrépito. Tateia a parede e acende a luz. Há uma goteira. Põe o pijama e os chinelos e vai para a cozinha. A cã está encarando a porta, vê-se o contorno no vidro granulado. A Filha abre a porta para pegar um balde e a cachorra, feliz, pula. A garota afaga, fala com a pequena com voz aguda e imbecil, e percebe que ela está molhada. Suspira. Chega perto da casinha, e remexe na pilha de panos de chão. Escolhe um balde e apanha dois trapos. Seca a cachorra, que, extasiada, se eriça e se sente coçar.
Uma cã centrifugada, um balde e um pano na mão.
"Boa noite"
E fecha a porta. Bebe água, apaga a luz e segue para o quarto.
A Filha percorre os corredores da casa (chega à sala oposta) com pressa; abre o piano e verifica uma nota que cantarolava. Si natural. Urra para o outro lado da casa e fecha o piano; o Pai, do outro lado, aquiesce aos gritos.
A cadela arranha a porta da área de serviço.
A Filha vai para o banheiro, tira as lentes do olho, lava o rosto. Segue então para o quarto. No escuro, ouve uma gota cair com estrépito. Tateia a parede e acende a luz. Há uma goteira. Põe o pijama e os chinelos e vai para a cozinha. A cã está encarando a porta, vê-se o contorno no vidro granulado. A Filha abre a porta para pegar um balde e a cachorra, feliz, pula. A garota afaga, fala com a pequena com voz aguda e imbecil, e percebe que ela está molhada. Suspira. Chega perto da casinha, e remexe na pilha de panos de chão. Escolhe um balde e apanha dois trapos. Seca a cachorra, que, extasiada, se eriça e se sente coçar.
Uma cã centrifugada, um balde e um pano na mão.
"Boa noite"
E fecha a porta. Bebe água, apaga a luz e segue para o quarto.
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'Quem conta um conto...',
Relatos.
24 outubro 2012
MORAES, Vinícius. O Relógio
Passa, tempo, Tic-tac
Tic-tac, Passa, hora
Chega logo, Tic-tac
Tic-tac, E vai-te embora
Passa, tempo, bem depressa
Não atrasa, não demora
Que já estou muito cansado
Já perdi toda a alegria
De fazer meu tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Passa, hora
Chega logo, Tic-tac
Tic-tac, E vai-te embora
Passa, tempo, bem depressa
Não atrasa, não demora
Que já estou muito cansado
Já perdi toda a alegria
De fazer meu tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Tic-tac
Dia e noite, noite e dia
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26 setembro 2012
Heavy Heart (Dark Dark Dark)
In a room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
A room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
Heard on the news
Whats after the end of good things?
They said on the news
Things that they really don't change
Oh looking at you
Seems to be to me
That you're living proof
A gente nunca sabe o porquê das coisas acontecerem na hora que acontecem. A avó dizia que era porque Deus assim quer, mas vai saber.
A sala estava apinhada, mesmo com os netos comendo na cozinha entre berros e estrépito de talheres (é tanta vida naqueles projetos de gente que ela escapa pelos movimentos desengonçados e se espalha pelos objetos inanimados). Desde a morte da vó tinha ficado difícil juntar todo mundo naquela casinha.
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
A room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
Heard on the news
Whats after the end of good things?
They said on the news
Things that they really don't change
Oh looking at you
Seems to be to me
That you're living proof
A gente nunca sabe o porquê das coisas acontecerem na hora que acontecem. A avó dizia que era porque Deus assim quer, mas vai saber.
A sala estava apinhada, mesmo com os netos comendo na cozinha entre berros e estrépito de talheres (é tanta vida naqueles projetos de gente que ela escapa pelos movimentos desengonçados e se espalha pelos objetos inanimados). Desde a morte da vó tinha ficado difícil juntar todo mundo naquela casinha.
A comida, trazida (em doses não tão homeopáticas assim) por todos,
transbordava pelas beiradas da mesa. Diferentes conversas dançavam pelo
ar cheiroso de queijo derretido. O avô olhava silencioso da cabeceira,
com um sorrisinho de dar inveja à dona Lisa. Tinha comido um pouco
demais, diagnosticava, apertava-lhe o peito. Nada sério.
Da sala vinha a música agradável do moço (agora já velhinho) do banquinho e violão. Aquela voz minúscula de João se afogava no oceano de ruídos, falares e miares. Os gatos estavam assanhados com tanta fartura.
Só danço samba, só danço samba...
- Vai, muda lá a música! Alguém dança um bolero comigo?
- Pede pro pai! Ninguém mais sabe dançar isso.
O vô coçou a careca resignado e se levantou devagarinho, contornando a mesa com cuidado para não bater na quina. A filha trocou o vinil, e aconchegou-se ao pai.
...-tarara-ta-ta-...-tarara-ta -ta-...-tarara-ta-ta...
De passadas miúdas, os dois giravam pela sala. A filha atentava aos móveis para evitar um trombo.
Una vez, nada más, se entrega el alma con la dulce y total renunciación
O vô ditava a cadência. Firme e frágil, completo no paradoxo da velhice. Estava abafado ali, o ar, viciado. Aquela pressão no peito anunciava uma indigestão. Anunciou sua saída ao jardim, e três pirralhos correram para fora.
Ali, segurando o velho balanço de pneu, descansava o pé de abacate, plantado por ele e a vó há muito. Parecia ter deixado de crescer quando ela se foi, refletiu o velho. Apoiou-se no tronco ríspido, pois se sentia mais pesado. O que queijo não faz com a gente.
Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar
Hora da sesta, por que não? Recostou-se no companheiro, virado para olhar os netos, que saracoteavam pela terra e puxavam os rabos dos gatos descuidados.
Pesavam-lhe as pálpebras. Pesava-lhe o peito. Pesava-lhe o sono.
E depois, virou leveza.
Da sala vinha a música agradável do moço (agora já velhinho) do banquinho e violão. Aquela voz minúscula de João se afogava no oceano de ruídos, falares e miares. Os gatos estavam assanhados com tanta fartura.
Só danço samba, só danço samba...
- Vai, muda lá a música! Alguém dança um bolero comigo?
- Pede pro pai! Ninguém mais sabe dançar isso.
O vô coçou a careca resignado e se levantou devagarinho, contornando a mesa com cuidado para não bater na quina. A filha trocou o vinil, e aconchegou-se ao pai.
...-tarara-ta-ta-...-tarara-ta
De passadas miúdas, os dois giravam pela sala. A filha atentava aos móveis para evitar um trombo.
Una vez, nada más, se entrega el alma con la dulce y total renunciación
O vô ditava a cadência. Firme e frágil, completo no paradoxo da velhice. Estava abafado ali, o ar, viciado. Aquela pressão no peito anunciava uma indigestão. Anunciou sua saída ao jardim, e três pirralhos correram para fora.
Ali, segurando o velho balanço de pneu, descansava o pé de abacate, plantado por ele e a vó há muito. Parecia ter deixado de crescer quando ela se foi, refletiu o velho. Apoiou-se no tronco ríspido, pois se sentia mais pesado. O que queijo não faz com a gente.
Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar
Hora da sesta, por que não? Recostou-se no companheiro, virado para olhar os netos, que saracoteavam pela terra e puxavam os rabos dos gatos descuidados.
Pesavam-lhe as pálpebras. Pesava-lhe o peito. Pesava-lhe o sono.
E depois, virou leveza.
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