29 março 2008

Um Conto a Quatro Mãos (X)

'Good morning, good morning, Dear!'
Sarah abriu os olhos. Um metrônomo tiquetaqueava abafado, em um ambiente outro.
Em dilúvio, est(r)alou as mãos, pescoço maxilar pulsos cotovelos vértebras virilha joelho, tornozelo e finalmente os dedos do pé. Suspirou de alívio, sorrindo para o teto sóbrio.
Soergueu-se da cama. O lençol escorregou pela pele lisa, oculta sob o véu do breu.
Pantufas, pantufas... pantufas? Ah, sim, aqui estão as pantufas. Agora, a camiseta.
Vestindo uma enorme camiseta e um par de pantufas felpudas, Sarah apanhou seu bloco de desenho, um lápis e saiu para o corredor. Tec tec tec tec.

Nuvens prateadas voejavam a sua volta, como lontras dentro d'água. O Anfitriã encarava-o empoleirado num pico à distância, com a bengala fazendo um elegante ângulo agudo com seus pés.
As nuvens se dissipavam, retornando a um cenário escuro. Um leve risquejar sub-traíra o silêncio. O moço entreabriu as pestanas secas e uma silhueta borrada se destacou do ambiente escuro, debruçada sobre o colo.
A um resmungo seu, o vulto assustou-se e sumiu feito animal silvestre.
O pobre moço, envolto em bandagens, virou para o outro lado e dormiu.
E sonhou com as sebes altas e sussurrantes, regadas a singelas melodias de um cravo bem temperado.

A Anfitrião saía do quarto amarrando seu roupão para buscar um uísque quando Sarah passou apressada com seu tão familiar bloco de desenho na mão. Era cedo para a Pequena empipocar por aí. El' assistiu-a um pouco até ouvir um bip prolongado vindo do escritório.
Arrancou o longo papel de poucos caracteres da boca do fax, sorvendo o conteúdo - líquido e gráfico - com um ar grave. Logo após de passar os olhos pelo vômito maquinal, abriu uma gaveta e queimou-o com um isqueiro de prata.



(desculpem-me a demora)

12 março 2008

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street

Estive na quarta-feira passada no Kinoplex para assistir o musical "Sweeney Todd", dada a grande incidência de comentários favoráveis, e o meu interesse no filme (elenco, enredo...)
"SYNOPSIS: Johnny Depp and Tim Burton join forces again in a big-screen adaptation of Stephen Sondheim's award-winning musical thriller "Sweeney Todd." Depp stars in the title role as a man unjustly sent to prison who vows revenge, not only for that cruel punishment, but for the devastating consequences of what happened to his wife and daughter. When he returns to reopen his barber shop, Sweeney Todd becomes the Demon Barber of Fleet Street who "shaved the heads of gentlemen who never thereafter were heard from again." Joining Depp is Helena Bonham Carter as Mrs. Lovett, Sweeney's amorous accomplice, who creates diabolical meat pies. The cast also includes Alan Rickman, who portrays the evil Judge Turpin, who sends Sweeney to prison and Timothy Spall as the Judge's wicked associate Beadle Bamford and Sacha Baron Cohen is a rival barber, the flamboyant Signor Adolfo Pirelli. [Site Oficial]"

Certo, terminada a sessão, estava eu convencida de acabar de ter assistido um filme 'ultra-romântico' (Segunda Geração do Romantismo). O fato de estar vendo esta escola artística em literatura só me encheu de evidências, que exponho a seguir. (As pessoas que estiverem interessadas em assistir o filme sem spoilers, não leiam o que vem abaixo)
  • Presença da Mulher Romântica
A esposa de Benjamin Barker (Mr. Todd) - Lucy Barker, é de constituição frágil, pele branca, delicada, educada. Só faltava ser doente, coisa que sucede ao longo de sua vida, depois de seu envenenamento (vê-se no seu rosto de mendiga).
A filha de Barker - Johanna, segue o mesmo tipo estético da mãe ->
  • Pai (da jovem) Autoritário
Embora não seja propriamente o pai, o Juiz Turpin, responsável pela jovem Johanna, é um homem extremamente severo e autoritário, que mantém sua protegida trancafiada em casa.
  • Sublime x Grotesco
O filme contém diversos trechos, mas tomarei somente um.
Benjamin Barker x Sweeney Todd -> a mesma personagem, embora em fases distintas. Barker era um homem (como Todd menciona) tolo ["foolish barber"] (feliz ao lado de sua mulher e recém-nascida filha, de aparência saudável e considerado homem bonito (pelo senso comum). Sweeney Todd, por outro lado, era um homem deteriorado, amargo e 'louco'.
  • Egocentrismo
A obsessão de matar o juiz Turpin é uma delas, assim como a decisão de Mrs. Lovett de não contar o paradeiro de Lucy Barker, ou até mesmo o desejo do jovem marinheiro Anthony de seqüestrar Johanna para fugir com ela.
  • Supervalorização do sentimento
    • Ódio
A obsessão de vingança de Sweeney Todd pelo Juiz Turpin, que lhe roubou a vida, que se alastra pelo ódio pela raça humana, levando-o a matar todos os seus clientes.
    • Amor ("O Amor pode tudo")
O Amor à primeira vista de Anthony por Johanna, que o leva a apanhar, a formular modos de seqüestrá-la, a se passar de assistente de peruqueiro para resgatá-la num manicômio. E no fim, dentre os personagens, Anthony e Johanna são os únicos que sobrevivem para fugir de Londres juntos.
  • Escapismo: morte/loucura
Mr. Todd torna-se indiscutivelmente desequilibrado mentalmente depois de quinze anos na prisão por crime que não cometera. São vários os momentos no filme que Mrs. Lovett o impede de tomar atitudes precipitadas em virtude de sua obsessão. Fora isso, as últimas cenas do filme são um homicídio massivo, onde Mrs. Lovett, S. Todd, Lucy Barker, Turpin e Timothy Spall morrem.
  • Fotografia do filme:
Predominância do filtro azulado -> muito contraste entre o Claro x Escuro e vermelho extremamente chocante

Infelizmente, não posso comentar a trilha sonora =)
e por hoje é só.

20 fevereiro 2008

Um Conto a Quatro Mãos (VIII)

'Escravos de Jó, jogavam Caxangá
Tira, põe, deixa ficar
Guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá!
Guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá!'
_____

__(...) Seguido da singela entoada, apalpou os bolsos internos do paletó, fazendo, com um esganiço das juntas metálicas, a passagelétrica soerguer, ameaçadora. Parecia uma casa qualquer, cujos muros acinzentados apresentavam-se coroados de desafios arregaçados. O Anfitrião adentrou, batendo a bengala no chão como se para conferir de que ele continuava ali, duplamente concreto. A neve era fofa e o moço - pobre moço - tinha a pele encravada de arrepios sanguinolentos.
__Térreo, primo piso, porta, olhos, cortinas... o Anfitrião - ou a Anfitriã? - fez a passagem engolí-los com mais uma cutucadela no paletó. A chave que misteriosa-mente surgiu em sua luva calçada tinha um formato peculiar, mas foi inserida na lateral da maçaneta, junto de uns cliques agudos e secos e quando viu, sumiu.
__Abandonando o moço tingido de escarlate para que em paz fizesse sua higiene pessoal com um tantinho mais de privacidade, o Anfitrião deixou-o defronte a porta de mogno que dava acesso ao banheiro azul, seguindo pela excêntricasa sem desgrudar de sua bengala. Sala futurista - e de cores contrastantes -, sala barroca - com um cravo sorrindo com suas teclas acastanhadas a receber luz de uma vasta parede envidraçada (meio encoberta por uma cortina de veludo), hall 'noir' e enfim a cozinha... cubista. Todos os aparelhos aparentavam ter sido geomilimetricamente feitos sob medida - coisa que de fato ocorrera, quando o mundo ainda era um ovo tremilicante aberto em cima de uma orca a navegar pelo universo à fora -, de cores tão vivas a ponto de estarem prontas a sair pulando por aí feito cabritas. Em cima do fogão de bocas triangulares se encontrava um grande panelão-paralelepípedo, com uma canja excepcional (incrementada por aspargos) dentro. Abrindo o armário laranja ao cutucão de sua bengala, recolheu treze cubos de tamanho respeitável, cuja extremidade superior abria.
__Munido de infinita paciência, ele despejou o jantar dentro de cada receptáculo, depositando uma colher não-curva, fechando e transferindo para um carrinho - freqüentemente associado a doces. Finita a operação, se dirigiu ao hall e em frente à base da escada (a ser trilhada para acessar os quartos), pressionou com a (bendita) bengala um pedaço do rodapé, escancarando uma passagem. Ouvindo o ininterrupto e aleatório ruído, o Anfitrião abriu em seu semblante andrógeno um sorriso doce e depositou o carrinho numa plataforma ao lado da estreita sucessão de degraus. Acionou um dispositivo para baixar o jantar de seus fascinantes moradores, indo ao seu encontro, com seus sapatos ecoando no piso de tacos.

18 fevereiro 2008

Um Conto a Quatro Mãos (VI)

__A ânsia pelo arfar cessou ao encarar aquela situação. O arauto do que ele não concebia estava ali, com as unhas quebradas e sujas. Mas o que recomeçou o fluxo ensandecido de acontecimentos foi o sumiço daquela absoluta absurda alucinação. Um riso cristalino rasgou o silêncio resguardado pelo zumbido das sebes transpostas.
'Olhe, olhe quem vem lá
Correndo feito o Coelho que sempre atrasado está'

__Com o ar divertido, um homem muito elegante entrou em seu campo de visão. Vestia um terno preto assaz ajustado, portando luvas mais claras que sua tez e uma bengala preta com detalhes em prateado. Uma cartola preta encimava seu cabelo ondulado acastanhado inconformado, e olhos sagazes sorriam maliciosos sobre seu nariz afilado. Era de uma estranha fisionomia andrógena, e sua voz não denunciava seu sexo. Pairava na indecisão, na suave curvilínea glabra do rosto fino, inquietante π dentre números inteiros.
'Há tempos te espero, jovem amigo,
Chame-me de Anfitrião e venha comigo
Ao meu incomum e confortável abrigo'
__O(a) Anfitrião estendeu-lhe a mão coberta de fino pano e aguardou que o moço, o pobre esfarrapado e ensangüentado moço se aproximasse.
'Em um lugar subterrâneo há uma singela morada
para minha pequena coleção
- embaixo de uma casa, escondida por cerca eletricamente farpada -
têm fetiche, fobia, estranheza. Transtornados todos são'
__Com um aperto enérgico ele agarrou o antebraço do hesitante moço e a um movimento veloz executado pela bengala, abriu um rasgo no ar e pulou dentro dele. O moço perdeu o equilíbrio e bateu a testa num muro de concreto, sentindo um líquido quente escorrer por entre suas linhas de expressão.

11 fevereiro 2008

Uma citação interessante:
"Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora."
M. Kundera

29 janeiro 2008

Um Conto a Quatro Mãos (IV)

_
E a história segue... Aqui e Acolá

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___(...) Estava alentando seu corpo que já fremia de dor antecipada pelo esforço quando parou, em tempo. Encarou a porta de cima a baixo, como fazia com as ninfas que pertenciam à outro solo sagrado. Sair pela porta da frente? Pouco perspicaz.
___Deu meia volta, sendo então tragado pela escuridão das naves laterais. Suas pernas já se livravam do entorpecido espanto de ainda estarem funcionando e forneciam, pouco a pouco, passadas mais vigorosas e seguras de sua potência. Tropeçando aqui e ali, ele localizou uma porta coadjuvante e sua respectiva tranca. Com um cadeado.
___O moço praguejou, surpreso pelo lapso de raciocínio em não considerar que a saída poderia estar trancada. Não o desejavam vivo, ponderou, não havia sido apenas um entusiasmo descontrolado no incentivo.
___Foi então que ele ouviu um tropel cadenciado de passos. Seu sangue solidificou a ponto de se mover centímetro por centímetro de acordo com o staccato cardíaco simétrico aos pés alheios. Olhou em volta e viu o vulto de um santo serenamente imóvel ao seu lado, portando uma lança. Pousou sua mão em volta dela. Era de madeira e ferro. Arrancou-a dos braços divinizados e atacou o cadeado, antiquíssimo por sinal. Seu coração foi derretendo e acelerando conforme ele ouvia os passos apressarem em direção ao guincho metálico.
___Sem demora o cadeado cedeu e o moço jogou a lança para o alto, abrindo impetuosamente a porta pesada a atravessando-a.
___'Ah, não...' sibilou, amuado e infeliz, quandou mirou altas sebes labirínticas e serpenteantes. Ouviu um baque seco atrás de si e ao voltar-se viu que saíra de uma passagem que desvanecia entre as folhas impecavelmente podadas.

16 janeiro 2008

Um Conto a Quatro Mãos (II)

Convido-os a observarem uma escrita experimental a quatro mãos e dois cérebros. Aqui segue a continuação do texto que iniciado no blog 'Amortescimento' pelo ilustríssimo Tuma. Desfrutem se tiverem paciência ;)
Seguiremos com esse projeto indefinidamente, aqui e acolá, então, sorte aos navegantes!

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

___(...) A coroa de espinhos do moço pregado mais adiante e o oceano de caquinhos bruxuleantes vítreos no jovem moço. O sofrimento palpável por cegos em comunhão entre seus semblantes inanimados, onde o silêncio emanava putrefato por entre as homofônicas colunas de blocos harmônicos perfeitamente pétreos. Haviam rasgos escarlates na carne branca-rosada tenra como a barriga de uma tartaruga filhote que se arrasta na lixa molhada de areia. Rasgos ferinos sorridentes sulcados naquela alvura resplandecente, cadavérica como o silêncio, eles se mexiam ao resfolegar suave do corpo caído (discípulos daquele tal de Lucifer? o pobre coitado que caiu primeiro e muito mais do que aquele ali, estatelado no interior úmido da casa de Deus).
___Passou-se um tempo, mal percebido pela catedral centenária indignada e ferida, muito menos pelos santos pintados e esculpidos que o quedado confundira com pessoas falantes que se aglomeravam ao seu redor feito leucócitos em volta de microrganismos invasores. Meros instantes trincados quebrados em segundos como aqueles caquinhos que floresceram ao redor do moço desmaiado. Após este tempo, os fragmentos translúcidos ondularam num sussurrar suave e o moço, aquele lá no meio daquela vidraçaiada toda, se mexeu resmungou xingou e sentou, chiando de dor por aqueles pedacinhos pontiagudos cutucarem seus glúteos magoados e humilhados com sádica determinação. E escorreu mais tempo até aquele infeliz resolver botar-se de pé e cambaleante torto rasgado e furado dar seus primeiros passos adiante - conceito muito relativo para alguém que mal enxerga por onde anda, com todo aquele sangue meio envidraçado cintilando no rosto. Ele, todavia, andou.

13 dezembro 2007

Mote: Sob os panos da mesa, sua mão sobre meu jeans.

(http://em50letras.blogspot.com/2007/11/jeans.html)

ela percorreu com ligeireza o jeans vestido ao seu lado, por debaixo da toalha de piquenique. a solidez dos músculos por debaixo do pano causou-lhe uma quentura no ventre. apertou e arranhou o tecido. ele, com uma das mãos segurando um punhado de cartas em leque, abaixou a outra e agarrou-lhe os dedos irrequietos, firme e severo. seu olhar mostrava-se compenetrado na jogada do outro.
suspirou. amores confidenciais.
a mão relaxou aperto, paulatina e negligentemente.
a varanda estava aberta atrás deles. uma tímida brisa remexia as cortinas. pesadas.
o refresco estava derretendo seus cubos de gelo, num jarro de vidro. não estava tão quente, embora ela palpitasse e estremesse, com a noite escorrendo em seu dorso e o comichão flamejante irradiando inquietações pelo corpo e(s)xtático.
ela retirou com ternura seus dedos e voltou a passear sobre a perna coberta de um azul áspero. com o canto do olho viu o maxilar trincar e os fulgurantes olhos acinzentados lançarem um raio de pura censura. a perna mexeu-se, incomodada. as cartas balouçaram de maneira quase imperceptível. ela sorriu com a boca torta em um sarcasmo triunfante, levantou-se com um copo de refresco e rumou para a cozinha, em busca de mais gelo; aquela noite estava esvaziando toda a forma.
a gata estava deitada no final do cubículo, encarando-a com um misto de preguiça e indiferença. sustentando aquele olhar, a moça encostou na bancada de pedra fria (ah, a rígida frigidez a arrepiava, parecia arder em febre).
risadas na sala.
um apertão gélido arrancou-lhe de voluptuosos pensamentos. um agarrar possessivo. era ele, com a boca furiosa espremida em pequenas linhas.
ela puxou-o contra si e arrancou-lhe um beijo dos lábios comprimidos. sendo empurrada, mordeu o próprio com um ar arrogante e fitou-o.
ele deixou a cozinha, com passos duros. ela voltou a seus pensamentos, sustentando o ar desaprovador e faiscante da gata.

08 dezembro 2007

Memórias Papaguenianas

Toda vez que eu levantava os olhos injetados da tela e admirava a fulgurante e verde paisagem que se estendia do lado de lá da parede envidraçada, vasculhava o verde-marrom-cinza à procura daquele pássaro. Ao pesquisar na internet havia descoberto que seu nome (popular) era sanhaço. Com o corpinho plúmbeo e as asas e costas manchadas de um verde-besouro. Seus olhos eram pontos pretos irriquietos que pareciam carrapatos-estrela lustrosos. Era um Pequeno resplandecente, que vivia aqui e acolá no jardim. Quando o vi atacando vorazmente um mamão maduro no pé, dei-lhe o nome de Papagueno. Ele tinha um canto que me inebriava (embora estivesse mais para falsetista que tenor), mas que não ouvia quando estava do lado de cá do vidro - no Mundo que seguiu adiante, como diria Roland de Gilead.
No começo, sua visita era esporádica, mas quando os mamões amadureceram, era comum vê-lo se locupletando numa fruta que era do seu tamanho. Tinha pena de retirar os mamões, principalmente pelo fato de que não mais o veria caso fizesse isso. Para retê-lo quando os mamões haviam sido consumidos por completo, passei a largar pedaços de fruta nos degraus de pedra externos, comida que passava desapercebida - ou ignorada - pela cadela que perambulava do lado de fora.
O tempo foi passando, e eu cada vez mais buscava o conforto daquele corpinho leve por perto, mesmo que no mundo do lado de lá do vidro. Criei uma bela pasta de fotos do pequeno Papagueno. Ele sempre estava lá, assim como o travesseiro para acomodar a minha cabeça pesada de pensamentos.
Então, houve um dia. Ergui minha vista da tela e afastei minha mão do teclado negro, procurando pelo Pequeno. Varri o jardim minuciosamente, mas nada do corpo cinza de verde-besouro, nem dos inteligentes carrapatos lustrosos. Baixei novamente meus olhos para a tela, mas a inquietação começou a me cutucar impiedosamente, e eu tornei a examinar através da vidraçaiada. Ele não estava lá. Olhei para os degraus pétreos e a banana continuava ali. Levantei-me e atravessei a fronteira entre os dois mundos. Andando por entre as folhas mortas encontrei algumas penas rajadas do tão conhecido verde furta-cor. Aquelas pequenas amostras de Papagueno laceraram minha espectativa. Peguei-as com cuidado e pesar. Em seguida fiz uma pesquisa em profundidade, encontrando algumas outras próximas ao muro, untadas de um líquido escuro já seco e ligeiramente oleoso.
Por mais que caçasse os demais restos do pequeno Papagueno, nada mais vi, exceto os olhos gulosos do gato vizinho espreitando faiscantes por cima do muro. Raivosa, observei o ar petulante do gato, tão comumente mau humorado.
Matar o gato não podia, embora ímpetos sádicos corressem em arrepios pelo corpo. Limitei-me a enxotá-lo do muro.
Levei as penas para dentro, onde limpei e guardei ao lado da famigerada tela, para fitá-las toda vez que desviasse os olhos injetados, nutrindo de indubitável nostalgia.

24 novembro 2007

O garoto, A pomba e A pasta

Pouco se passara desde o toque longínquo do sinal do colégio. Lá estava ele, com sua pasta escolar dependurada frouxamente em um dos braços, uma mochila suja e os olhos redondos fitando com intensidade o dia iluminado de cinza.
Uma brisa fria corria por entre os troncos semi-nus, fazendo folhas mortas suspirarem ao serem deslocadas de seus metódicos montes.
Com as faces coradas e a respiração irregular, ele deambulava por entre as árvores. Sozinho, com sua pasta. Parecia cansado, cabisbaixo, embora encarasse o mundo com suas esferas cor de âmbar.
O parque estava deserto e os bancos disfarçados com o cenário. Ele semicerrou seus olhos de longas pestanas à procura de um. Ao sentar-se, notou uma pilha meio desfeita de folhas ao lado do banco. Depositou sua pasta e mochila a seu lado e recostou. Na extremidade de sua visão interpelavam-se automóveis guinchantes e volta e meia alguma buzina estridente. O garoto olhou de esguelha para a sua pasta. Hoje era o dia de entregar uma redação à professora. Ela estava ali, mas ele não queria entregá-la. Não era apenas a timidez, havia a sensação de não poder entregar aquilo, coisa que revirava em seu estômago e irradiava uma fraqueza em seu ventre. Também não conseguira escrever mais nada. A história de um jovem adolescente que morrera por overdose de heroína. Real demais, sua professora certamente contaria para sua mãe, e ele não queria vê-la triste.
Soprou um vento mais encorpado e uma espiral de folhas rodopiantes lançou-se contra suas costas cobertas por um suéter de lã. Ele praguejou baixinho, tentando retirar aquelas encarrapitadas no tecido, sem muito sucesso.
Uma cantiga assolou sua mente, uma cantiga sem letra, cantada por uma voz infantil chorosa. Dava-lhe certo desconforto, mas ela havia grudado em sua cabeça feito sanguessuga. Cantarolando com a voz suave e soprada dos mancebos, ele olhava alternadamente o parque e a pasta. O parque e a pasta. O parque e a pasta.
Numa dessas incursões ao parque que ele viu esparramada no chão uma minúscula silhueta cinzenta, tremendo feito uma grande colher de gelatina; o garoto, com os olhos cor de âmbar reluzindo de curiosidade e dúvida. Embaçado. Ele não conseguia identificar o que era aquilo.
Espiou no relógio. Eram nove e meia da manhã.
Ele pôs-se de pé. Andou, olhando para trás como para se certificar que a pasta não havia sumido. Embaçado. Enevoado. A silhueta cinza era um pássaro. Um filhote, constatou o garoto, ao agachar-se ao lado. Voltou seus olhos para cima, protegendo-os da luz com as mãos. Aquilo era um ninho? Ele não saberia dizer, estava tudo tão embaçado...
Seja como fosse, tinha caído. O frágil esqueleto havia desconjuntado e a asa parecia torcida em uma posição anti-anatômica, assim como uma de suas pernas. Suas penas estavam avermelhadas de terra e arrepiadas em diversas direções. Os olhinhos de contas da ave estavam vidrados em seu rosto e iam tornando-se opacos, sem o brilho daquela manhã nublada.
Os olhos de âmbar fitavam o cadáver ainda fresco com um misto de tristeza e espanto. Estavam dilatados, brilhantes.
Um rugido esganiçado de um freio arrancou-o do torpor e o fez retornar nervosamente para perto da pasta, largando o pássaro de olhos de contas na poeira avermelhada. O relógio riscado marcava dez e dez. Procurando nos bolsos de sua mochila, achou dinheiro suficiente para comprar um pão com manteiga. Estava com fome.
O garoto jogou a bolsa em suas costas e apanhou a pasta. Saiu andando, cantarolando aquela lúgubre cantiga sem palavras e com os olhos opacos da ave em vívida recordação.
Contornou o parque num passo ausente e distraído. Havia uma padaria do outro lado da rua, com doces e mulheres vestidas de cores claras e toucas no cabelo. Ele tornou à esquerda, no asfalto malhado de branco.
Os ouvidos, próximos aos tranqüilos olhos cor de âmbar ouviram guinchos ensandecidos, e um capô prateado atirou a pasta e o rosto tristonho para o alto.
Como uma boneca de trapos, o garoto caiu, com os seus olhos dourados arregalados de surpresa tingindo-se de escarlate.
Uma mulher gritou, ele ainda a ouviu. Começou a sentir sua suéter cheia de folhas ficando pegajosa e quente. Seu rosto tombou para um dos lados - ele não sabia mais dizer qual era. Ele começou a ver, gradativamente, por entre um nevoeiro vermelho, sua mão lívida contra o asfalto cor de chumbo. Tão escuro. Tão dolorido.
Uma pessoa endireitou seu rosto, com um ar de repugnância e misericórdia estampado no rosto.
O sangue ia se alastrando, a histeria aumentando. Mas ao garoto o volume dos gritos foi cedendo espaço à cantiga despalavrada e a parca imagem do céu e da pessoa recortada contra o mesmo foi confundindo-se com a recente lembrança das duas contas pretas presas acima do bico daquela ave, perdendo o brilho. Ele tentou tatear a sua volta, procurando a pasta, mas ela não estava mais ali.

16 novembro 2007

quantas?

quantas vezes vou escrever num papel qualquer, quantas vezes vou arquivar nesta gaveta ao lado, quantas vezes vou sonhar o inatingível, imaginar fantasias?
quantas vezes vou sorrir, quantas vezes vou sofrer, quantas vezes vou segurar na ponta da língua, a vontade estúpida e tapada de cantar, de dizer, de sumir..?
quantas vezes vou dizer que o esqueci?
quantas vezes vou deixá-lo passar (como o samba de chico) e quantas vou revivê-lo, como brasa em lareira?quantas vezes vou desejá-lo, quantas vezes descartá-lo, jogando sua imagem no canto esquecido e escuro?
por que não ficas lá de uma vez?
quantas vezes vou mostrar-lhe a porta? quantas vezes pedirei para ficar? quantas vezes vou segurá-lo e empurrá-lo, simultaneamente?
quantas vezes?

sei que tudo, todas essas dificuldades são problemas que moram aqui dentro (indica a cabeça, com o indicador). será que eu necessito de tanta atenção assim?

05 novembro 2007

Sonhei (Lenine)

Sonhei e fui, sinais de sim,
Amor sem fim
, céu de capim,
E eu olhando a vida olhar pra mim.

Sonhei e fui, mar de cristal,
Sol, água e sal, meu ancestral,
E eu tão singular me vi plural.

Sonhei e fui, num sonho à toa,
Uma leoa, água de Goa,
E eu rogando ao tempo: - Me perdoa
E eu rogando ao tempo: - Me perdoa

Sonhei pra mim, tanta paixão,
De grão em grão, verso e canção,
E eu tentando nunca ouvir em vão.

Sonhei, senti, sol na lagoa
Céu de Lisboa, nuvem que voa,
E um país maior que uma pessoa.

Sonhei e vim, mares de Espanha,
Terras estranhas, lendas tamanhas,
E eu subi sorrindo essa montanha.
E eu subi sorrindo essa montanha.

Sonhei, enfim, e vejo agora,
Beijo de Aurora, ventos lá fora,
E eu cantando a Deus e indo embora.
E eu cantando a Deus e indo embora.

faz tanto sentido...

01 novembro 2007


Escrevo? Deixo de escrever? Rasgo minha pele com as letras disformes que anseiam por sair? Imprimo-as no meu cérebro? Ouço-as soletradas pela brisa horrorosamente quente que varre estas três dimensões que eu consigo chamar de realidade? Leio-as nas irregularidades das folhas, entre movimentos nas periferias da vista? Cheiro-as como ao papel e a cola de algum livro aberto? Teclo-as com os meus dedos irrequietos que se estalam compulsivamente?

Não, não escrevo. É melhor deixá-las guardadas aqui dentro, esperando o tempo passar. Ele chega, sem dúvida, mas a que preço? Não fará bem dizer isso, e talvez só piore. Mas as palavras cutucam martelam gritam esperneiam feito crianças mimadas. Elas não gostam de ser reprimidas, isto é fato. Mas, penso, olhando para meu umbigo untado de suor e de novo para a tela fosforescente, latejante. Mas, de que servem as palavras se não forem ditas? Para que cargas d'água (e é exatamente o que eu necessito neste momento) elas servem?

Para comunicação foram feitas. Ego-mundo, mundo-Ego. Mas se o interlocutor não as quer ouvir, por que elas insistem em se multiplicar pela mente, feito erva-daninha? Elas não têm vida própria, ao menos não deveriam. São palavras. Objetos utilizados para comunicação. Ponto. Ponto. Ponto. (...) Antes fosse.

Ao imprimir tanto significado a elas, me sinto manipulada, não manipuladora de tais. É vertiginoso, e deveras desconfortável.
Nem tanto. O mundo não é feito de tantos conceitos extremos...?
Ego-palavra, palavra-Ego não é exceção.

ou É?

28 outubro 2007

"Desde que o Samba é Samba é Assim"

Ontem estava me lembrando o que um moço aí me disse sobre estudar um instrumento, quando estava sentada em frente ao piano. Ele me disse que estudar aquele instrumento o acalmava. Lembro também que comentei que não conseguia tocar quando estava aflita, ou com algum sentimento muito intenso. Me desconcentro, funciono mais devagar, não penso... Sai tudo errado. Sei lá.
Mas hoje, justo hoje, com esta prezada pessoa afastada, longe, excessivamente forasteira, consegui me acalmar ao som das minhas mãos frenéticas correndo pelo teclado, tentando com uma certa dose de frustração executar uma peça de Chopin, uma tal de "Valsa Brillante" (número não-sei-das-quantas). Foi algo aliviante, como quando consegui fazer um melisma certo, com a maldita corrente de ar apoiada. Uma coisa sem querer, desavisada e alentadora. Foi terapêutico. Bom. Estava tão tristonha, sem notícias, nada além de um apático e-mail mal humorado. "Cantando eu mando a tristeza embora" diz Caetano, Ele diz "Tocando eu mando a tristeza embora" e por um tênue momento, consegui assentir.
A tristeza aflita e culposa tornou numa serenidade incômoda. E cá estou eu, na minha aflitividade desabafada, sem surdina, entendendo essas desventuras e bichos estranhos que somos;nozes (macadâmias de preferência).

27 outubro 2007

Meus ombros, se precisar.
Meu olhar, se quiser ver.
Minhas mãos, se te perder.
Meu sorrir, se te faltar.

Minha mente, a te buscar.
Meus sonhos, a te cobrir.
Meu peito, a te seguir.
Minha alma, a te velar.

Meu choro, se te secar.
Minhas pernas, se quer ir.
Minha riso, se quiser vir.
Meus braços, se tropeçar.

Minha face, pra apertar.
Meu dedo, pr'em ti escrever
Meu colo, pra esqueçer
Meu canto, pra te ninar.

Se teu corpo todo não aguentar
O mundo a rodar e a vida a cerzir,
E, exausto, quiser fugir, cair...

Teras meu corpo todo, a te apoiar.

(28/09/2006) - Márcus Vinicius