Mi manques
Na saída do samba
Na rua mal iluminada
Na sala alumiada
Defumante em perfil
Mi manchi
Em todos os pequenos momentos
Da Rosa ao despretensioso samba de sexta a noite
Nos descaminhos da noite
Que teimam a não virar rotina
Nos dedos embebidos em etílicos
Inverteradamenbte errantes
Amo-te no meu profundo desespero
Irremediavelmente
Na clareza funcional
Nas respirações das músicas
Breve
E indissolúvel
(Des)esperançosa
In-eterna expectativa
03 fevereiro 2017
19 janeiro 2017
ARORA, M; DESHMUKH, T. Sometimes
I. Sometimes, love grows.
Sometimes, when love grows,
it does not run wild, like haphazard branches
of a tree you wanted to stand beside.
It does not unravel like a birthday present,
hidden deep under layers of suspense,
and adventure.
It does not swirl around the world like a rainbow,
celebrating first touches, accidental eye contacts,
and naked phone calls.
Sometimes, when love grows,
it grows like the lines of a poem which once marked
tombstones around your heart.
It sticks like a fresh bruise under your feet,
and makes you want to run,
behind butterflies and stars.
It grows like a seed in your throat,
every-time you gulp, it scalps a little skin,
and heart.
Sometimes, when love grows,
it outgrows you.
II. Sometimes, love dies.
Sometimes, love dies like the falling autumn leaves
That swirl in a storm
And before you know it, the summer is over.
Sometimes, love dies like the ever widening spaces in midnight phone conversations,
Just like the crackle over the line swallows your soul,
Love swallows you whole.
It’s musty rankness creeps up on you in the middle of your third dance,
When your lipstick begins to fade and the cocktail has gone stale.
Love fails.
Sometimes love reeks of broken dreams
And heaving, bruised promises.
It stinks of the clamor for survival against all odds. Though it boasts of battle sores,
Sometimes, love loses the war.
Sometimes love dies,
Fading away faster than the colours of the polaroid
That made love grow in the first place.
Sometimes, love renders lovers faceless.
Sometimes, when love dies,
It ends the lies,
Just so you can live a little.
Sometimes, when love grows,
it does not run wild, like haphazard branches
of a tree you wanted to stand beside.
It does not unravel like a birthday present,
hidden deep under layers of suspense,
and adventure.
It does not swirl around the world like a rainbow,
celebrating first touches, accidental eye contacts,
and naked phone calls.
Sometimes, when love grows,
it grows like the lines of a poem which once marked
tombstones around your heart.
It sticks like a fresh bruise under your feet,
and makes you want to run,
behind butterflies and stars.
It grows like a seed in your throat,
every-time you gulp, it scalps a little skin,
and heart.
Sometimes, when love grows,
it outgrows you.
II. Sometimes, love dies.
Sometimes, love dies like the falling autumn leaves
That swirl in a storm
And before you know it, the summer is over.
Sometimes, love dies like the ever widening spaces in midnight phone conversations,
Just like the crackle over the line swallows your soul,
Love swallows you whole.
It’s musty rankness creeps up on you in the middle of your third dance,
When your lipstick begins to fade and the cocktail has gone stale.
Love fails.
Sometimes love reeks of broken dreams
And heaving, bruised promises.
It stinks of the clamor for survival against all odds. Though it boasts of battle sores,
Sometimes, love loses the war.
Sometimes love dies,
Fading away faster than the colours of the polaroid
That made love grow in the first place.
Sometimes, love renders lovers faceless.
Sometimes, when love dies,
It ends the lies,
Just so you can live a little.
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De Outrens,
poesia..?
10 dezembro 2016
año de la niña
cariñita,
finalmente o calor chegou
um pouco tímido umas semanas atrás
mas agora com força total
o eterno presente se arrasta
um monstrengo que irradia calor das banhas que brotam aos borbotões conforme caminha
homeopáticos um passo por dia.
há mini baratas subindo pelas paredes do ônibus
sáunico
em pleno sábado, 23h
tentamos passar desapercebidas uma a outra
quantas baratinhas teriam caminhado pelo banco
que sento nessa minissaia desconfortável?
pela janela
um segurança de bar avista
uma guria miúda no ônibus
brilhante de suor e lágrimas
ternura? pena? desdém?
zombeteiro ou não
há desconhecidos que veem muito além
do que creem ser possível os melhores
os inseparáveis
concentradíssimos nos próprios umbigos besuntados de suor
defumados por um cachimbo qualquer.
cariñita, esse presente balofo
sentou em cima e amassou meus passados recentes
me comprime contra essa parede
chacoalhante do ônibus
por onde sobe uma baratinha
(ela ainda finge que não me vê).
finalmente o calor chegou
um pouco tímido umas semanas atrás
mas agora com força total
o eterno presente se arrasta
um monstrengo que irradia calor das banhas que brotam aos borbotões conforme caminha
homeopáticos um passo por dia.
há mini baratas subindo pelas paredes do ônibus
sáunico
em pleno sábado, 23h
tentamos passar desapercebidas uma a outra
quantas baratinhas teriam caminhado pelo banco
que sento nessa minissaia desconfortável?
pela janela
um segurança de bar avista
uma guria miúda no ônibus
brilhante de suor e lágrimas
ternura? pena? desdém?
zombeteiro ou não
há desconhecidos que veem muito além
do que creem ser possível os melhores
os inseparáveis
concentradíssimos nos próprios umbigos besuntados de suor
defumados por um cachimbo qualquer.
cariñita, esse presente balofo
sentou em cima e amassou meus passados recentes
me comprime contra essa parede
chacoalhante do ônibus
por onde sobe uma baratinha
(ela ainda finge que não me vê).
04 outubro 2016
desenlace
i
alecrim
alecrim dourado
morria lentamente no vaso
alecrins, na realidade.
Duas mudas
se afogavam mutuamente naquele
cilindrículo
agarradas
bracing themselves (for..?)
raízes escapavam pelos furos do prato
procurando na sala - estéril
burguesamente limpa
cheirando a lavanda
(ainda vão me explicar por que o ser humano
conferiu a esse cheiro medonho
a alegoria da pulizia)
- espaço
água, comida
reivindicações bastante fundamentais, diria.
ii
o terrível da palavra
é a incapacidade de transmitir sons
(eles encerram tanto em si
que a letra parece sempre meio morta)
pois
enfiando a pá no vasinho
vi-me incapaz de não despedaçá-las
urlavano, poveracce
com um som de tecido rasgado
sofriam
completamente enrodilhadas
e protegidas por uma bola de argila escorregadia
em determinado momento duvidei de que eram mudas diferentes
e que não eram mesmo uma coisa só e eu estava matando meu alecrim
(que não nasceu no campo mas num vaso, eita vida infeliz)
arranquei as raízes para procurar seus corpinhos
e de fato eram duas
mortalmente abraçadas, sufocando
vacilei
poxa mas será mesmo necessário
tudo isso eu posso só passá-los para um vaso maior e pronto
antes que perdesse totalmente a coragem segurei-os com firmeza e puxei
o som foi medonho
a hideous cracking noise
algo estava irremediavelmente destruído
alquebradas, não consegui convencer-me a não plantá-las lado a lado
desejando não tê-las matado na operação
uma, outra, ou ambas.
alecrim
alecrim dourado
morria lentamente no vaso
alecrins, na realidade.
Duas mudas
se afogavam mutuamente naquele
cilindrículo
agarradas
bracing themselves (for..?)
raízes escapavam pelos furos do prato
procurando na sala - estéril
burguesamente limpa
cheirando a lavanda
(ainda vão me explicar por que o ser humano
conferiu a esse cheiro medonho
a alegoria da pulizia)
- espaço
água, comida
reivindicações bastante fundamentais, diria.
ii
o terrível da palavra
é a incapacidade de transmitir sons
(eles encerram tanto em si
que a letra parece sempre meio morta)
pois
enfiando a pá no vasinho
vi-me incapaz de não despedaçá-las
urlavano, poveracce
com um som de tecido rasgado
sofriam
completamente enrodilhadas
e protegidas por uma bola de argila escorregadia
em determinado momento duvidei de que eram mudas diferentes
e que não eram mesmo uma coisa só e eu estava matando meu alecrim
(que não nasceu no campo mas num vaso, eita vida infeliz)
arranquei as raízes para procurar seus corpinhos
e de fato eram duas
mortalmente abraçadas, sufocando
vacilei
poxa mas será mesmo necessário
tudo isso eu posso só passá-los para um vaso maior e pronto
antes que perdesse totalmente a coragem segurei-os com firmeza e puxei
o som foi medonho
a hideous cracking noise
algo estava irremediavelmente destruído
alquebradas, não consegui convencer-me a não plantá-las lado a lado
desejando não tê-las matado na operação
uma, outra, ou ambas.
29 setembro 2016
12 setembro 2016
CORSALETTI, F. Notícia
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
viciado em crack
à sua cama miserável
para evitar uma tragédia
outra é rodar os sebos de Pinheiros
atrás dos poemas de Villon
e voltar para casa
com uma novela sobre um urso
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
porque quando fica louco
ameaça a irmã com uma faca
e bebe perfume se não tem birita
outra é passar duas horas num engarrafamento
conversando com um taxista irritado
que garante que antes do Viagra
as ruas eram cheias de mulheres casadas
procurando sexo
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
por desespero
e sem temer um processo
outra é faltar ao trabalho
por ter cheirado cocaína a noite inteira
ouvindo Bach
e falando merda
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
é presa e diz
que não se arrepende de nada
pois seu menino é seu tesouro
outra é esquecer o aniversário
de uma amiga querida mas neurótica
que não perdoa quem não telefona
para lhe dar os parabéns
viciado em crack
à sua cama miserável
para evitar uma tragédia
outra é rodar os sebos de Pinheiros
atrás dos poemas de Villon
e voltar para casa
com uma novela sobre um urso
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
porque quando fica louco
ameaça a irmã com uma faca
e bebe perfume se não tem birita
outra é passar duas horas num engarrafamento
conversando com um taxista irritado
que garante que antes do Viagra
as ruas eram cheias de mulheres casadas
procurando sexo
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
por desespero
e sem temer um processo
outra é faltar ao trabalho
por ter cheirado cocaína a noite inteira
ouvindo Bach
e falando merda
uma coisa é a mãe que acorrenta o filho de onze anos
é presa e diz
que não se arrepende de nada
pois seu menino é seu tesouro
outra é esquecer o aniversário
de uma amiga querida mas neurótica
que não perdoa quem não telefona
para lhe dar os parabéns
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De Outrens,
poesia..?
29 agosto 2016
à livre opção sexual
não quero enfrentar minha família
vamo mais rápido que tem uns caras estranhos atrás da gente
beija eu, não beija ela
vocês não tem vergonha?!
fala mais baixo, é minha mãe
nossa mas boceta fede, como você consegue
ela é só uma amiga
deus me livre de namorado
pelo menos você não precisa se preocupar com contracepção
nossa mas você nem parece
não, que eu saiba não tem profilaxia
até eu pareço mais fancha que você
todas nós estamos sozinhas, não é exclusividade
você era mesmo meio moleque
precisamos defender a livre opção sexual
aaa..o meu ex- era de lá também
hoje é dia de
vamo mais rápido que tem uns caras estranhos atrás da gente
beija eu, não beija ela
vocês não tem vergonha?!
fala mais baixo, é minha mãe
nossa mas boceta fede, como você consegue
ela é só uma amiga
deus me livre de namorado
pelo menos você não precisa se preocupar com contracepção
nossa mas você nem parece
não, que eu saiba não tem profilaxia
até eu pareço mais fancha que você
todas nós estamos sozinhas, não é exclusividade
você era mesmo meio moleque
precisamos defender a livre opção sexual
aaa..o meu ex- era de lá também
hoje é dia de
30 julho 2016
dés connexions
ontem recebi um
não, 4
cards de dragão
gostei mais do último, disse a Carlos
é mais bonito
mais forte
e se chama Cosmo.
É porque é um dragão adulto, respondeu
muitos kms depois
com um copo de bebida
cafonérrima de roupão e computador
assistia a uma criança de pijama de urso e computador
WEIRD
Layer: 01
fraca e sem entender
GIRLS
Layer: 02
por onde for,
everyone's connected
além dos dragões ganhei também
algodões
sementes, evidentemente
(e uma penca de bananas-prata
muitos adeuses e atés)
pus-me a plantá-las
na pracinha da quadra
- tá plantando, moça?
aham, algodão
e o guri seguiu descendo paras quadras
everyone's connected
and you don't seem to understand
o pulso
o pescoço
ainda doem
4650 de defesa não parecem suficientes, Carlos
feeble as shit, desculpe o termo
e não repita por aí, é feio
coisa de
não, 4
cards de dragão
gostei mais do último, disse a Carlos
é mais bonito
mais forte
e se chama Cosmo.
É porque é um dragão adulto, respondeu
muitos kms depois
com um copo de bebida
cafonérrima de roupão e computador
assistia a uma criança de pijama de urso e computador
WEIRD
Layer: 01
fraca e sem entender
GIRLS
Layer: 02
por onde for,
everyone's connected
além dos dragões ganhei também
algodões
sementes, evidentemente
(e uma penca de bananas-prata
muitos adeuses e atés)
pus-me a plantá-las
na pracinha da quadra
- tá plantando, moça?
aham, algodão
e o guri seguiu descendo paras quadras
everyone's connected
and you don't seem to understand
o pulso
o pescoço
ainda doem
4650 de defesa não parecem suficientes, Carlos
feeble as shit, desculpe o termo
e não repita por aí, é feio
coisa de
29 julho 2016
LEMINSKI, P. minhas 7 quedas
minha primeira queda
não abriu o pára-quedas
daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda
da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo
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De Outrens,
poesia..?
26 julho 2016
LEMINSKI, P.
sabendo
que assim dizendo
- poema -
estava te matando
mesmo assim
te disse
sabendo
que assim fazendo
você estava durando
foi duro
mesmo assim
te trouxe
mesmo assim
te fiz
mesmo sabendo que ias
fugaz
ser infeliz
sempre infeliz
mesmo assim
te quis
mesmo sabendo
que ia te querer
ficar querendo
e pedir bis.
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De Outrens,
poesia..?
05 julho 2016
Freitas, A. Ravel
Todo telefone é terrível – negro
guerrilheiro à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá
à espera, no gancho
sempre na véspera
com o grampo da granada
já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar daqui
nem pelos fios dos cabelos
pare antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone – negro
à escuta
guerrilheiro à espera
ao lado do sofá
disfarçado na sala
na véspera da granada
com o grampo nos dentes fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios, pare
daí)
guerrilheiro à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá
à espera, no gancho
sempre na véspera
com o grampo da granada
já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar daqui
nem pelos fios dos cabelos
pare antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone – negro
à escuta
guerrilheiro à espera
ao lado do sofá
disfarçado na sala
na véspera da granada
com o grampo nos dentes fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios, pare
daí)
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De Outrens,
poesia..?
30 junho 2016
meu cérebro não é dotado de muitas abstrações
não é de metáforas bonitas
ou imagens poéticas
para o que há aqui dentro
não vai muito além de
(raiva
saudade
frustração)
escritos juvenis para
tentar aplacar essa coisa
que habita a sombra invisível que se senta ao meu lado no restaurante
ou que rouba os lápis e
guarda minhas chaves
hai 1 nuovo messaggio
adormeço
e acordo sobressaltada com o ruído de gotas do celular
tão artificiais quanto as pedaladas fiscais do governo pt
passing resemblances to the original thing
hai 2 nuovi messaggi
arco íris e socialismo
hai 3 nuovi messaggi
desligo o wi-fi.
ou imagens poéticas
para o que há aqui dentro
não vai muito além de
(raiva
saudade
frustração)
escritos juvenis para
tentar aplacar essa coisa
que habita a sombra invisível que se senta ao meu lado no restaurante
ou que rouba os lápis e
guarda minhas chaves
hai 1 nuovo messaggio
adormeço
e acordo sobressaltada com o ruído de gotas do celular
tão artificiais quanto as pedaladas fiscais do governo pt
passing resemblances to the original thing
hai 2 nuovi messaggi
arco íris e socialismo
hai 3 nuovi messaggi
desligo o wi-fi.
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Estertores,
Monólogos,
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29 junho 2016
Leminski, P.
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
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24 junho 2016
ANDRADE, C. D. Estrambote melancólico
Tenho saudade de mim mesmo, sau-
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.
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De Outrens,
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21 junho 2016
CAMPOS, A.
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
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