29 junho 2016

Leminski, P.

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

24 junho 2016

ANDRADE, C. D. Estrambote melancólico

Tenho saudade de mim mesmo, sau-
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.

21 junho 2016

CAMPOS, A.

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

20 junho 2016

WISNIK, J.

te ver é vertigem
pensar é miragem
se o tempo parasse
guardava essa imagem
mas ele'a-ca-bou-de-pas-sar

02 junho 2016

Ela tem passado bastante tempo nessa janela, hein, comentou Ab, se divertindo com minha minúcia em limpar o LP antes de colocar a agulha. Sentado no parapeito, ele deu seus três tragos antes de expirá-los, também em tríade.

Uhm. Um som choroso invadiu o ar.

E você anda um bocado obcecada com essa Opfer, tudo isso é ela?

Capaz. Esse cânon não pára de tocar.

Perpetuum, riu ele. Lembro-me quando ele terminou a Musikalische Opfer, sujeito interessante, ele era. Um pouco excêntrico, como nós, Pequena. Pena que não vingou muito na época. Balançou a perna três vezes e pulou para dentro.
Olhou de esguelho para a guria antes de entrar. È lontan lontano, quella.

Eh, infatti. E come risona qua dentro.

Há essas mentes que vibram na mesma frequência - sabemos disso, não?

Eccome.

Estou faminto, minha querida, vou buscar algo. Apanhou a bengala e, descerrando três vezes a porta, saiu.


É, moça. Essas pessoas não nos deixam. Levantei para fechar os vidros e a cortina e me aninhei nas almofadas, ouvindo a agulha deslizar.

31 maio 2016

Abri as janelas e acendi o cigarro. Venta muito.

No prédio à frente há uma mulher parada diante da janela. A janela parece fechada, seus cabelos não se movem. Ela come algo de uma cuia, com palitos.

Hashi, me sussurra Ab. Aquiesço, me desvencilhando de sua lembrança.
Hashis, then.

Ela olha fixamente para algum ponto, encolhida como que fustigada pelo vento. Do lado de fora.

Dentro do seu aquário, ri Ab. Te lembra alguém?

Não me dou ao trabalho de responder.

Até as olheiras, Sib, olha ali...

Aham. Amasso a bituca e largo no parapeito. Fechando a janela para entrar, vejo-a pela última vez, imóvel, olhando para o nada.

Pior que parecia mesmo.

02 maio 2016

Já não há mais coração

A cólica reprimida pelos comprimidos, a dor das amígdalas pelo ardido do gengibre mascado, a dos ouvidos pela

zabumba q'bumba esquisito
batendo dentro do peito

Mas o tempo não se deixa enganar. Ele não sai pipocando atrás dos aflitos; segue seu próprio ritmo, e deixa a gente, iludido, achando que não tem jeito, que é assim mesmo.

E as dores abafadas como o trânsito do lado de lá do vidro. Presentes. Latentes.

13 janeiro 2016

A intimidade estava latente,

...Sib observou, enquanto bebericava aquele café com leite metido a macchiato. Um passo em falso e o passado desabaria sobre ambos. Parte dele, ao menos.
Para ele, uma chuva de verão. Para Sibilla, outro dilúvio.

A cumplicidade estava na curva da boca, pinicando. Mas o sorriso - ah, esse foi tão somente sarcástico.

11 janeiro 2016

SMITH, Zadie. On beauty

E será que ainda eram assim, ela se perguntou - essas garotas novas, essa nova geração? Ainda sentiam uma coisa e faziam outra? Continuavam desejando apenas serem desejadas? Continuavam sendo objetos de desejo em vez de - como diria Howard - sujeitos desejantes? (...) Ainda matando a si próprias de fome, ainda lendo revistas femininas que odeiam explicitamente as mulheres, ainda se cortando com pequenas lâminas em lugares que acham que ninguém notará, ainda fingindo orgasmos com homens de quem não gostam, ainda mentindo a todos sobre tudo.

p. 232

14 novembro 2015

De-lira

Enquanto grande vivência deste sábado
14, pós sexta-feira agourenta,
descobri que a morte tem cheiro

Pestilento, diria
- confesso que procurei o almiscarado que me prometeram os poemas e romances - 
de cocô incontido
de ferida infecta
de ramela seca que não se permitiu tirar
de 39,4ºC.

Descobri também que
a morte é simples e direta
sem grandes rodeios:
é só dor, sofrimento
e depois mais nada
é líquido leitoso e
pi - pi - piii..

É um grande cansaço que enfim termina
uma exaustão que espasma
e petrifica.

Enfim, soube que a morte
não fecha olhos
nem permite que as orelhas os cubram
fica ali, naquela constatação inerte de que a vida continua para além;
de que a vida corre
e que a tarefa dos vivos, no fim, é a constante
e perene
despedida.

--

P.S. Acho que, por último, a morte é a limpeza dolorosa desse odor
é a espuma do sabão em pó
que esfregamos com força no cimento, para tirar os rastros
da doença
da sofferenza;

é o polimento das lembranças
(uma sistematização, talvez)
despindo-as do cheiro acre e putrefato
da dor esquelética
de quem diz "pra mim já deu"

- eu só gostaria de ter entendido.

08 novembro 2015

(M. C.)

Poderia escrever teu nome
70 vezes seguidas
Mas isso não espantaria
a saudade que sinto
de dizer o teu nome
entre sal e dentes
Isso em nada iria melhorar
a falta que faz teu corpo
dentro da sombra invisível
que diariamente se senta
a meu lado no restaurante
às 11h da manhã
Ou no lugar direito do automóvel
quando dirijo até a repartição
pública das finanças do estado
O tal Estado escavacado
e tão sobrevalorizado
Escrever o teu nome
repetidamente
primeiro em linhas verticais
depois horizontais
e mais tarde transversais
Como quem espera algum dia ser o vencedor
do Four in a Row


13 agosto 2015

Buzzati, Dino. Poema a fumetti.

Ve lo ricordate, amici?
Vocês se recordam, amigos?
Supremo bene,
O bem supremo.
non allegro, mai.
não alegre, jamais.
Perché sarebbe zero
Porque seria nulo 
se mancasse nel profondo quel pensiero
se faltasse no fundo aquele pensamento
che un giorno tutto finirà.
de que um dia tudo acabará.
Sì pure nel vizio più tortuoso,
Sim, mesmo no vício mais tortuoso
per la propagazione della specie
para a propagação da espécie
la natura urgeva, ricordando
a natureza urgia, recordando
il comune destino.
o destino comum.
La carne è il paradiso
A carne é o paraíso
solo perché ciascuno lasci
só para que cada um deixe 
un altro dietro a sé,
um outro atrás de si,
e così al termine
e assim, ao término
della divina congiunzione
da divina conjunção,
l’uomo si vedeva intorno
o homem via ao seu redor
la palude sterminata nel crepuscolo
o pântano ilimitado no crepúsculo
sotto la pioggia, e non anima viva
sob a chuva, e nenhuma viva alma
se non due lebbrosi laggiù in fondo.
a não ser dois leprosos lá embaixo, ao fundo.
E suonavano le maledette campane.
E soavam os malditos sinos.


10 agosto 2015

HILST, H. Cantares do sem nome e de partidas


VII


Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci­-as. Livros? Perdi­-os.
Perdi­-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo veem aquela.

24 julho 2015

I've been kinder.

11 junho 2015

O estranho dia em que os motoristas de ônibus se tornaram cegos aos passageiros.

Sem sinal de parada – apertado por sei lá que criatura – passavam reto pelos pontos. Três, quatro braços estendidos se indignavam à sua passagem imperturbada. Não estavam lotados.
Foi-se um. Dois velhinhos resmungaram.
E foi-se outro. Três estudantes bufaram.
No terceiro, que parou para a descida de alguém, não atendeu nem mesmo às batidinhas no vidro. A trabalhadora esbravejou.

 

Os barulhos deveriam ser daquele troço que bate no vidro lá de trás, pensou. E seguiu viagem.