03 abril 2014
14 março 2014
Leminski, P.
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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15 fevereiro 2014
A sentado
Era como a maré alta. As ondulações iam e vinham, o resultado era uma gradual mas constante expansão. Não que ele fosse um entendido de mares, longe disso, seu elemento era o solo, pisava só em terra firme.
Ou era como o aquecimento global, a engolir as pequenas ilhas, refletiu. O sol nascia, mas ainda sem ultrapassar o emaranhado dos galhos dos eucaliptos. Jorge arrastou a leiteira vazia e acomodou-a na garupa da moto. O dia começava, mas a luta não findava, assim como o leite se repunha manhã a manhã. E lá ia ele, todo santo dia. A resistir. A garantir a vida, naquele cerco de deserto verde, cada dia mais próximo.
28 setembro 2013
mãe-pátria
Era uma vez uma mãe
que assistia TV e tinha um filho em missão de paz.
Orgulhosa ela era
orgulhosa permaneceu quando um oficial bateu na sua porta
e com pompa fúnebre transmitiu-lhe seus pêsames.
Com lágrimas de orgulho foi ao enterro
com o rosto sobriamente radiante beijou a bandeira que cobria a madeira
- morreu pela pátria
dizia
na madrugada do dia dezesseis -
e parecia insensível à dor e à dúvida.
Até que um dia foi notificada
que o último pagamento do filho estava no quartel para ser retirado.
Qual foi o seu choque quando, ao chegar,
viu que o pagamento parava no dia quinze.
que assistia TV e tinha um filho em missão de paz.
Orgulhosa ela era
orgulhosa permaneceu quando um oficial bateu na sua porta
e com pompa fúnebre transmitiu-lhe seus pêsames.
Com lágrimas de orgulho foi ao enterro
com o rosto sobriamente radiante beijou a bandeira que cobria a madeira
- morreu pela pátria
dizia
na madrugada do dia dezesseis -
e parecia insensível à dor e à dúvida.
Até que um dia foi notificada
que o último pagamento do filho estava no quartel para ser retirado.
Qual foi o seu choque quando, ao chegar,
viu que o pagamento parava no dia quinze.
22 setembro 2013
A todos os Atlas
Às vezes eu penso no Atlas
sozinho segurando o mundo
...ou segurando seu sozinho do mundo?
Sentiria ele a presença do mundo ao redor?
Ou seria ele só mais um dos que andam pelas ruas
carregando nas costas um mundo?
Qualquer sozinho
é um mundo de peso.
Qualquer mundo
é uma pena sozinho.
sozinho segurando o mundo
...ou segurando seu sozinho do mundo?
Sentiria ele a presença do mundo ao redor?
Ou seria ele só mais um dos que andam pelas ruas
carregando nas costas um mundo?
Qualquer sozinho
é um mundo de peso.
Qualquer mundo
é uma pena sozinho.
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19 setembro 2013
vivento
vi o vento
quando avoada ouvia você
falar sobre cousas loucas da vida
ele era mirrado, tímido e discreto
mas sorriu ao passar.
quando avoada ouvia você
falar sobre cousas loucas da vida
ele era mirrado, tímido e discreto
mas sorriu ao passar.
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07 julho 2013
Irresoluto
Uma vida de relações inacabadas... Tantas pontas soltas que não se acha mais o fio principal (há?)
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24 março 2013
SANT'ANNA, Affonso R. Assombros
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
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23 março 2013
Voler bene
A Itália vai me cativando aos poucos. É constante, como uma amante fiel e paciente. Ela se mostra, discretamente, nos pequenos gestos: em um relance de olhos verdes, em um arco velho de túnel, em uma paisagem esvoaçante da janela do trem, nos seus prédios que suplicam por uma reforma. Ela chama na dureza delicada do acolhimento do arcaico no dia-a-dia.
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27 janeiro 2013
Notte d'estate
É noite, e chove. A família entra em casa, vê a cachorra a esperar defronte à porta de vidro da sala. Ela molha-se.
A Filha percorre os corredores da casa (chega à sala oposta) com pressa; abre o piano e verifica uma nota que cantarolava. Si natural. Urra para o outro lado da casa e fecha o piano; o Pai, do outro lado, aquiesce aos gritos.
A cadela arranha a porta da área de serviço.
A Filha vai para o banheiro, tira as lentes do olho, lava o rosto. Segue então para o quarto. No escuro, ouve uma gota cair com estrépito. Tateia a parede e acende a luz. Há uma goteira. Põe o pijama e os chinelos e vai para a cozinha. A cã está encarando a porta, vê-se o contorno no vidro granulado. A Filha abre a porta para pegar um balde e a cachorra, feliz, pula. A garota afaga, fala com a pequena com voz aguda e imbecil, e percebe que ela está molhada. Suspira. Chega perto da casinha, e remexe na pilha de panos de chão. Escolhe um balde e apanha dois trapos. Seca a cachorra, que, extasiada, se eriça e se sente coçar.
Uma cã centrifugada, um balde e um pano na mão.
"Boa noite"
E fecha a porta. Bebe água, apaga a luz e segue para o quarto.
A Filha percorre os corredores da casa (chega à sala oposta) com pressa; abre o piano e verifica uma nota que cantarolava. Si natural. Urra para o outro lado da casa e fecha o piano; o Pai, do outro lado, aquiesce aos gritos.
A cadela arranha a porta da área de serviço.
A Filha vai para o banheiro, tira as lentes do olho, lava o rosto. Segue então para o quarto. No escuro, ouve uma gota cair com estrépito. Tateia a parede e acende a luz. Há uma goteira. Põe o pijama e os chinelos e vai para a cozinha. A cã está encarando a porta, vê-se o contorno no vidro granulado. A Filha abre a porta para pegar um balde e a cachorra, feliz, pula. A garota afaga, fala com a pequena com voz aguda e imbecil, e percebe que ela está molhada. Suspira. Chega perto da casinha, e remexe na pilha de panos de chão. Escolhe um balde e apanha dois trapos. Seca a cachorra, que, extasiada, se eriça e se sente coçar.
Uma cã centrifugada, um balde e um pano na mão.
"Boa noite"
E fecha a porta. Bebe água, apaga a luz e segue para o quarto.
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'Quem conta um conto...',
Relatos.
24 outubro 2012
MORAES, Vinícius. O Relógio
Passa, tempo, Tic-tac
Tic-tac, Passa, hora
Chega logo, Tic-tac
Tic-tac, E vai-te embora
Passa, tempo, bem depressa
Não atrasa, não demora
Que já estou muito cansado
Já perdi toda a alegria
De fazer meu tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Passa, hora
Chega logo, Tic-tac
Tic-tac, E vai-te embora
Passa, tempo, bem depressa
Não atrasa, não demora
Que já estou muito cansado
Já perdi toda a alegria
De fazer meu tic-tac
Dia e noite, noite e dia
Tic-tac, Tic-tac
Dia e noite, noite e dia
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26 setembro 2012
Heavy Heart (Dark Dark Dark)
In a room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
A room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
Heard on the news
Whats after the end of good things?
They said on the news
Things that they really don't change
Oh looking at you
Seems to be to me
That you're living proof
A gente nunca sabe o porquê das coisas acontecerem na hora que acontecem. A avó dizia que era porque Deus assim quer, mas vai saber.
A sala estava apinhada, mesmo com os netos comendo na cozinha entre berros e estrépito de talheres (é tanta vida naqueles projetos de gente que ela escapa pelos movimentos desengonçados e se espalha pelos objetos inanimados). Desde a morte da vó tinha ficado difícil juntar todo mundo naquela casinha.
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
A room full of people
Will anyone dance with me?
My heart is heavy
Will anyone dance with me?
Heard on the news
Whats after the end of good things?
They said on the news
Things that they really don't change
Oh looking at you
Seems to be to me
That you're living proof
A gente nunca sabe o porquê das coisas acontecerem na hora que acontecem. A avó dizia que era porque Deus assim quer, mas vai saber.
A sala estava apinhada, mesmo com os netos comendo na cozinha entre berros e estrépito de talheres (é tanta vida naqueles projetos de gente que ela escapa pelos movimentos desengonçados e se espalha pelos objetos inanimados). Desde a morte da vó tinha ficado difícil juntar todo mundo naquela casinha.
A comida, trazida (em doses não tão homeopáticas assim) por todos,
transbordava pelas beiradas da mesa. Diferentes conversas dançavam pelo
ar cheiroso de queijo derretido. O avô olhava silencioso da cabeceira,
com um sorrisinho de dar inveja à dona Lisa. Tinha comido um pouco
demais, diagnosticava, apertava-lhe o peito. Nada sério.
Da sala vinha a música agradável do moço (agora já velhinho) do banquinho e violão. Aquela voz minúscula de João se afogava no oceano de ruídos, falares e miares. Os gatos estavam assanhados com tanta fartura.
Só danço samba, só danço samba...
- Vai, muda lá a música! Alguém dança um bolero comigo?
- Pede pro pai! Ninguém mais sabe dançar isso.
O vô coçou a careca resignado e se levantou devagarinho, contornando a mesa com cuidado para não bater na quina. A filha trocou o vinil, e aconchegou-se ao pai.
...-tarara-ta-ta-...-tarara-ta -ta-...-tarara-ta-ta...
De passadas miúdas, os dois giravam pela sala. A filha atentava aos móveis para evitar um trombo.
Una vez, nada más, se entrega el alma con la dulce y total renunciación
O vô ditava a cadência. Firme e frágil, completo no paradoxo da velhice. Estava abafado ali, o ar, viciado. Aquela pressão no peito anunciava uma indigestão. Anunciou sua saída ao jardim, e três pirralhos correram para fora.
Ali, segurando o velho balanço de pneu, descansava o pé de abacate, plantado por ele e a vó há muito. Parecia ter deixado de crescer quando ela se foi, refletiu o velho. Apoiou-se no tronco ríspido, pois se sentia mais pesado. O que queijo não faz com a gente.
Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar
Hora da sesta, por que não? Recostou-se no companheiro, virado para olhar os netos, que saracoteavam pela terra e puxavam os rabos dos gatos descuidados.
Pesavam-lhe as pálpebras. Pesava-lhe o peito. Pesava-lhe o sono.
E depois, virou leveza.
Da sala vinha a música agradável do moço (agora já velhinho) do banquinho e violão. Aquela voz minúscula de João se afogava no oceano de ruídos, falares e miares. Os gatos estavam assanhados com tanta fartura.
Só danço samba, só danço samba...
- Vai, muda lá a música! Alguém dança um bolero comigo?
- Pede pro pai! Ninguém mais sabe dançar isso.
O vô coçou a careca resignado e se levantou devagarinho, contornando a mesa com cuidado para não bater na quina. A filha trocou o vinil, e aconchegou-se ao pai.
...-tarara-ta-ta-...-tarara-ta
De passadas miúdas, os dois giravam pela sala. A filha atentava aos móveis para evitar um trombo.
Una vez, nada más, se entrega el alma con la dulce y total renunciación
O vô ditava a cadência. Firme e frágil, completo no paradoxo da velhice. Estava abafado ali, o ar, viciado. Aquela pressão no peito anunciava uma indigestão. Anunciou sua saída ao jardim, e três pirralhos correram para fora.
Ali, segurando o velho balanço de pneu, descansava o pé de abacate, plantado por ele e a vó há muito. Parecia ter deixado de crescer quando ela se foi, refletiu o velho. Apoiou-se no tronco ríspido, pois se sentia mais pesado. O que queijo não faz com a gente.
Abacateiro serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar
Hora da sesta, por que não? Recostou-se no companheiro, virado para olhar os netos, que saracoteavam pela terra e puxavam os rabos dos gatos descuidados.
Pesavam-lhe as pálpebras. Pesava-lhe o peito. Pesava-lhe o sono.
E depois, virou leveza.
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'viva la musica',
Por mote
31 agosto 2012
Samba Erudito - Paulo Vanzolini
...
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza
E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza
E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos
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28 agosto 2012
Freud.
"Estamos diante de um fato, e é de se esperar que nos acostumemos a ele pondo de lado nossos próprios gostos. Precisamos aprender a falar sem indignação sobre o que chamamos de perversões sexuais — essas transgressões da função sexual tanto na esfera do corpo quanto na do objeto sexual. Já a indefinição dos limites do que se deve chamar de vida sexual normal nas diferentes raças e épocas deveria arrefecer tal ardor fanático. Tampouco nos devemos esquecer de que a perversão que nos é mais repelente, o amor sensual de um homem por outro, não só era tolerada num povo culturalmente tão superior a nós quanto os gregos, como também lhe eram atribuídas entre eles importantes funções sociais. Na vida sexual de cada um de nós, ora aqui, ora ali, todos transgredimos um pouquinho os estreitos limites do que se considera normal. As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados — sua “sublimação” — destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais. Portanto, quando alguém se torna grosseira e manifestamente pervertido, seria mais correto dizer que permaneceu como tal, pois exemplifica um estágio de inibição do desenvolvimento."
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