08 fevereiro 2009

boca chiusa.

__Uma música soava, a escorrer notas beliscadas de um violão virtual. A sensação, no entanto, era diversa. Era como se ela fosse um órgão (daqueles de centenas de tubos gélidos como seus pés e mãos) e em seu interior estivesse algo esticado, afinado e a ser beliscado por aqueles dedos - (que ela não se lembrava mais como pareciam quando os sentira) confundidos com o ambiente sem luz - e que toda aquela ressonância era pedalada pela tomada e despejava-se pelas efêmeras caixas de som.
__De como as vibrações iam parar naqueles buraquinhos palpitantes, era o mesmo mistério de sua infância, quando ela encarava aqueles imponentes canos de metal nas paredes sacrílegas e se punha a procurar as teclas, o banquinho, os pedais... sempre fora um esforço vão. E dentro dela ele continuava a dedilhá-la como se ela fosse um violão, e em sua cabeça ecoava seu murmúrio morno.

O que será que me dá, que me bole por dentro, será que me dá...

03 fevereiro 2009

The Drawing of the Three.

__"I make you want to puke."
__"That's affirmative."
__"Oh boy," Eddie said. "I love it. I'm sitting here in a little room and I've got nothing on but my underwear and there's seven guys around me with guns on their hips and make you want to puke? Man, you have got a problem."
__Eddie took a step toward him. The Customs guy held his ground for a moment, and then something in Eddie's eyes — a crazy color that seemed half-hazel, half-blue — made him step back against his will.
__"I'M NOT CARRYING!" Eddie roared. "QUIT NOW! JUST QUIT! LET ME ALONE!"

(...)

__As Eddie watched, one of the horrors reached up, lightning quick, and snared a sea-bird which happened to swoop; too close to the beach. The thing fell to the sand in two bloody, spraying chunks. The parts were covered by the shelled horrors even before they had stopped twitching. A single white feather drifted up. A claw snatched it down.
__Holy Christ, Eddie thought numbly. Look at those snappers.
__"Why do you keep looking back there?" the guy in charge had asked.
__"From time to time I need an antidote," Eddie said.
__"From what?"
__"Your face."

S. King

31 janeiro 2009

estranhices.

__Ali, imersa naquele mar de pessoas desconhecidas, naquele lugar quase aleatório (friso o quase), estava uma garota – também desconhecida por todos – parecendo meio confusa. Ela se sentia como se um bolo de bosta grande demais tentasse passar pelo intestino, a dar aquela sensação de desconforto deslizando pelo abdômen. Ela estivera acompanhada por um casal que não parecia menos estranho; mas eles haviam entrado num portal sugador de gente, enquanto o pássaro-de-ferro que a sugaria se recusava a abrir a boca.
__Ela cantou baixinho, perambulou pelo corredor apinhado, foi ao banheiro; mas o nó não afrouxava, e a porra do avião não chamava para o embarque.
__Depois de mais músicas sussurradas, incontáveis pequenos gestos de impaciência, ela entrou, e assim que se acomodou no seu respectivo assento, o nó pareceu se dissolver; abstraindo a parte do estar a milhares de quilômetros longe, era como pegar um ônibus para a casa dos avós. A flying bus, indeed (and not for the grandpa’s house).
__Ela até dormiu (e acordou com a garganta a ranger de secura), comeu, leu, sentiu náuseas no ‘aterramento’ – tudo como de praxe. Nada muito fora do lugar, exceto a ausência do casal estranho.
__Ninguém a barrou, e alguns até a ajudaram com aquela mala quase do seu tamanho. O trem voou sobre os trilhos, o taxista falou bastante e ela chegou na casa de mais uma desconhecida (por ora), onde falou uma língua não-materna, com zilhões de erros e inconveniências; mas essa garota – nem tão desconhecida assim, para alguns – chegou no destino, sem extraviações de qualquer tipo.. nem mesmo de pasta de dente.
__E essa garota era eu (prazer).
PS. Hoje foi um dia estranho.

20 janeiro 2009

19 janeiro 2009

pésapados se emplastravam pelas poças, apressados; as pessoas passavam pela praça, expurgando nuvens mornas no ar.

um violão faceiro soava, debaixo do som da chuva.




pés
sapatos

fardos
pesados

fados

08 janeiro 2009

The Death of Maes Hughes

__Pluft Pong, é assim que Elysia Hughes me chama. Meço três palmos e meio, o que corresponde a sete décimos do tamanho de Ellie. Ao contrário dela - com seus seis invernos e alguns meses -, não tenho idade. Ela me fez branco como neve e sem um fio de cabelo sequer. Deu-me um chapéu cônico alvo como minha pele, vestiu-me com uma camisa e um bermuda de suspensórios, também brancos. Achou graça me colocar um enorme nariz redondo vermelho (parece que tenho um tomate no rosto) e me espremeu o máximo que conseguiu, de modo que eu me tornei um serzinho magricela e mirrado... mas, fazer o quê. Ela quis me fazer assim, então assim vim.
__Cheguei ao seu lado em meados do ano passado, quando o pai de Ellie começou a passar menos tempo em casa e mais tempo no trabalho. Nada indicava que ele estava fazendo algo arriscado. Como se amavam, esses dois... estavam sempre grudados como aquelas bolinhas de plantas que encarrapicham nas nossas roupas. Acho que só surgi porque Ellie precisava de companhia, durante as tardes que esperava o pai, brincando com formigas no jardim ou desenhando com giz na calçada. Eu sempre ria da mania de Maes de falar de seu tesourinho no telefone para desviar dos assuntos indesejados e despertar a fúria de seus superiores. Gracie, esposa de Maes Hughes, era muito carinhosa e atenciosa, mas me impressionava o carinho e alegria que pai e filha compartilhavam. Sempre era deixado de lado quando, ao cair da noite, Ellie corria escadas abaixo assim que ouvia a porta se abrir; mas nunca dei muita atenção para isso, adorava vê-los rolando juntos pelo tapete enquanto a graciosa mãe tricotava alguma coisa, com o tímido sorriso no canto da boca. Toda noite, depois do jantar, Maes levava Ellie no colo para a cama, onde contava histórias de brinquedos que criavam vida a noite. Assim que ele deixava o quarto, me acomodava entre os bracinhos de Elysia até o dia raiar.
__Mas houve então um fatídico dia, um triste dia. Maes saíra para trabalhar, no horário habitual. Ellie não notara, mas ele parecia um pouco mais tenso que o normal, embora sua face sempre se suavizasse ao observar nosso pequeno tesouro saltitante. Volta e meia passava a mão pelo escuro cabelo despenteadamente espetado ou ajeitava os óculos faiscantes. Ele deixou a casa. Brinquei com Elysia toda a tarde debaixo de sua cama, e a noite, dentro da banheira. A lua chegou, soergueu-se com sua cara redonda e branca (como a minha), encarando nossa casa com placidez.
__Depois do jantar, Ellie sentou-se numa poltrona ao lado da lareira e ficou olhando pela janela, comigo encarrapitado do parapeito (embora ela estivesse cerrada, penso que já mencionei minha silhueta). Esperávamos Maes. O tempo passou, tiquetaqueado pelo cuco e pelas afiadas agulhas de tricô de Gracie. Depois de um longo tempo, Gracie pegou o corpinho adormecido de Ellie e levou até nosso quarto, no andar de cima. Depositou-a com carinho embaixo das cobertas, deu-lhe um leve beijo na testa e se virou para sair do quarto enquanto eu me aconchegava entre os bracinhos de Ellie.
__Era meio da madrugada quando alguém bateu em nossa casa. Ouvi as pantufas da mãe arrastando pelos tacos de madeira, oscilantes. Desenlacei-me da pequena e preocupado, saí pela porta entreaberta. Escalei o topo do corrimão e com uma pequena empurradela, deslizei escada abaixo, caindo com leveza ao lado das canelas de Gracie. A porta estava aberta e do lado de fora havia um oficial com o mesmo uniforme de Maes. Ele murmurara algo enquanto eu aterrissava, mas tudo o que foi um soluço estrangulado da pobre mãe, e, ao olhar para cima, a vi de olhos arregalados, as mãos em concha na frente dos lábios e uma torrente de lágrimas escorrendo até o queixo e gotejando. Uma dessas gotas caiu em meu nariz. O homem colocou a mão no ombro da jovem viúva, num gesto que misturava genuína compaixão com um toque de automaticidade. Impactado, escalei as escadas e retornei aos braços de Ellie, onde aguardei que acordasse.
(...)

04 janeiro 2009

( . )

I feel empty.
It came so suddenly...

03 janeiro 2009

Kitty, kitty...

__Já estava tarde. Era a luz do poste que fraquejava diante da madrugada em potencial, ou eram os olhos obnubilados de Ray que pestanejavam como se arfassem dolorosamente. Ele se recostou na porta corrida de uma loja, fazendo um ruído de sofrimento metálico. Fez uma careta de insatisfação com o barulho e escorregou pela porta pichada até sentar-se. Ainda segurava uma garrafa semi-vazia de uísque, que levara embora ao sair aos uivos da casa da namorada.
__Seu estômago revirava-se, sua garganta ardia. Mesmo assim, aproximou o bocal e sorveu o líquido. Em seguida, arrotou. Suas pernas estavam trôpegas, e ele resolveu não tentar se levantar. Já não havia ninguém na rua, nem mesmo os costumeiros sem-teto. Ray suspirou e olhou para cima. O céu parecia veludo negro, não havia nenhuma estrela à vista; nem mesmo a lua sorria. Fechou os olhos e apoiou a cabeça na porta, que gemeu mais um pouco.

__Alguém que passasse por ali veria um jovem na faixa dos dezenove anos, vestindo jeans surrados, tênis imundos, com cabelos desgrenhados confundindo-se com a camiseta preta. Em sua mão jazia uma garrafa quase vazia.

__“Hello, Ray.”
__Ele abriu os olhos. Sua visão estava embaçada, então pestanejou algumas vezes, concentrando-se em discernir quem lhe falara. Defronte de si não havia ninguém, nem dos seus lados. Pela rua vinha vindo um pequeno vulto, andando sem pressa. Ray franziu a testa. It was a cat.
__ Ele bufou enquanto passava a mão pela testa, afastando os cabelos acortinados do hematoma que se alastrara pela maçã do seu rosto.
__“Are you trying to avoid me? What a silly boy…” The voice was closer, although nobody was there. E por que raios alguém estaria falando inglês, em plena Francisco Glicério, de madrugada?
__Ray tentou levantar-se, apoiando na indignada porta comercial. Ela guinchou. Seu cérebro registrou uma considerável mudança na viscosidade do chão, traiçoeiramente balouçante.
(...)

01 janeiro 2009

All is quiet, on new year's day...

__He whispers in my ears with softly kindness. The rain shuts up the fireworks's booms, and a low sound of an harmonica echoes, smoothly. No one stayed in the flats, all of them had rather go to the beach, jump seven (in the case of Laerte's God, only six, 'cause He rests in the seventh) waves.
__The world began, again. And I'm just here, quite reckless about the blow of events, just having tickles in my ears, wondering about something rather inconceivable.
__This almost emptyness of thoughts, this sensation of floating in something warm and velvet is quite pleasant, even with a touch of gloom.

29 dezembro 2008

The Chronicles of Narnia (The Magician's Nephew)

__"Now, sir" said the Bulldog in his business-like way, "are you an animal, vegetable, or mineral?" That was what it really said; but all Uncle Andrew heard was "Gr-r-r-arrh-ow!"

- C. S. Lewis

25 dezembro 2008

The Graveyard Book

__The man Jack met them halfway down the stairs. Mr. Dandy grinned at him, without any humor but with perfect teeth. "Hello, Jack Frost," he said. "I thought you had the boy."
__"I did," said the man Jack. "He got away."
__"Again?" Jack Dandy's smile grew wider and chillier and even more perfect. "Once is a mistake, Jack. Twice is a disaster."
__"We'll get him," said the man Jack. "This ends tonight."
__"It had better," said Mr. Dandy.
__"He'll be in the graveyard," said the man Jack. The three men hurried down the stairs.
__The man Jack sniffed the air. He had the scent of the boy in his nostrils, a prickle at the nape of his neck. He felt like all this had happened years before. He paused, pulled on his long black coat, which had hung in the front hall, incongruous beside Mr. Frost's tweed jacket and fawn mackintosh.

- Neil Gaiman, The Graveyard Book

22 dezembro 2008

Shrimps..?

I wonder why isn't an insult to say that someone has a head of shrimp; 'cause... y'know, have the skull filled with shit isn't a pleasant thing to hear, at all.

15 dezembro 2008

Invention II in C minor - Johann S. Bach.


Eram dois. Ora era ela ronronando ao pestanejar das asas e ele cobiçando-a ao vê-la do chão - a boca longe, pregada no céu, num riso zombeteiro.
Eram dois. Ora ele pousando em seu úmido focinho, e ela fechando os olhos.
Era ela na terra e ele no ar.
Era ela no ar e ele na terra.
Eram os dois na terra. Um sobre a planta, outro no parapeito da janela.
Eram os dois no ar. Um em pleno salto, outro no bafejar da brisa.
Eram sempre dois, nunca um. Ininterruptos, interligados, independentes, inconfundíveis.
Eram os dois invenções;
eram o muxoxo morno e o murmúrio melífluo.
Mas no derradeiro fim, unidos. ternamente.

13 dezembro 2008

Relances - II

__Era dia; um qualquer, com sol, com nuvens, vidas e todas aquelas coisas que se têm em um dia. O clima era diáfano, de luz irradiante, e o tempo seguia, com inadiáveis afazeres cotidianos. Neste dia, neste momento, havia a rapariga dentro de uma casa - que, diga-se de passagem, não era sua. Seu nome, segundo constavam os arquivos, era Malicia Darktan. Loura, magrinha, 'desaparecida' desde o seus seqüestradores foram assassinados, com... adivinha?
__Irène sorriu. Era uma filhote peculiar.

__Malicia estava na sala, entretida com um quadro surrealista de gatos quando ouviu sirenes se aproximando. Ela se mudara há pouco tempo para aquela casa, e não fizera nada de errado! Tudo havia saído exatamente como das outras vezes, e entretanto eles estavam ali. Seus poros da pele arrepiaram, seu desespero a(s)cendeu. A sirene espetava sua audição e absorvia seu cérebro num oceano de insensatez.
__Os fundos; pensou. E rumou.

__As sirenes chegavam à casa. 'Oh geez...we brought company?..' Irène praguejou e olhou de esguelha para o companheiro, indicando o jardim da rua com a cabeça. Ele assentiu e rumou para os policiais com a foice reluzindo ao sol; a jovem se dirigiu para dentro.

__'Hey'; uma figura entrava pela porta dos fundos. Malicia recuou, com o coração pulsando mais na boca do que entre os pulmões. 'Hey heey, take it easy folk, come closer, I've to take you out of here' dizia a silhueta, entrando com uma pressa mal dissimulada. Darktan retrocedeu, vendo uma jovem mulher trajando um longo poncho verde, adornado por uma cascata de cabelos castanhos. Uma das mãos estava estendida na sua direção, mas a outra mantinha-se convictamente imersa na lã.
__Ouviram gritos.

__Louis deu a volta na casa, saindo pela lateral. Os policiais o viram de imediato e logo começou o alvoroço, ele suspirou. Quatro bolas de fogo se materializaram à sua volta, e em seguida começaram os gritos.

__Malicia assustou-se com o ruído do lado de fora. Sem dar ouvidos à apressada forasteira, ela subiu as escadas correndo. No corredor dos quartos, sentiu uma mão segurar-lhe o ombro com firmeza e gritou de susto. 'Come with me, ok? We've no time' Darktan parou, emudeceu e ficou olhando a moça, que interpretou como um tênue (as)sentimento. Ela soltou então seu ombro, afastou-se alguns passos com extrema rapidez e puxou de dentro do poncho um pedaço generoso de papel alumínio. Malicia entreviu uma mão deformada segurando o rolo laminado.
__Parecia uma... garra?

__Três policiais correram, em pânico. Outros falavam no comunicador. O resto apontava para ele e o cercava, com cautela. Pena que ele não podia fazer churrasquinho.

__Esticou o rasgo espelhado e com um movimento desajeitado e brusco, deu uma (patada?) no papel. Darktan olhou com um ar nauseado: era como uma grande pata de lobo...

__Aproximava-se um helicóptero, e Louis discerniu outro escalão de gente encarrapitado nele.
__'Oh, shit'.

__Aquele pedaço de papel alumínio começou a irradiar algo semelhante a um flash prolongado. Irène afastou o braço da fonte de luz e fitou a filhote; que não se mexeu. Tinha um helicóptero lá fora.

__Louis desandou em desabalada corrida para os fundos da casa. Uma bala errante acertou-lhe na altura dos rins, rendendo-lhe um rosnado nada amigável.

__A moça ouviu o tiro e exasperou-se. Apanhou o pulso da filhote e arrastou-a para a luz, para a Umbra.

__Louis parou derrapando na frente da janela dos fundos, enquanto sentia a pele se reintegrar. Ergueu a mão e arranhou a superfície vítrea com violência. Sem hesitar, pulou para dentro do centro de ofuscação.

__Mal haviam observado o ambiente distorcido, Malicia começou a sentir uma sensação adormecer-lhe a consciência. Como se dos pulmões subisse uma ardência avassaladora, ou como se um lobo subisse-lhe pela garganta.
__Irène sentiu o pulso da filhote engrossar sobre sua mão, e um grunhido gutural bafejar-lhe a nuca. Foi aí que correu.

__Louis pulou de qualquer jeito para dentro do rasgo e viu, à poucos passos de distância, uma loura garota encurvar-se sobre a própria altura, e crescer. Crescer. Crescer. Um poncho balouçante já sumia ao longe, no ar distorcido. Ele correu, para longe.

08 dezembro 2008

Can She Excuse My Wrongs (by John Dowland)

'Can she excuse my wrongs with virtues cloak?'
Eu mirava sua face transmutar-se no teto envolto em breu, seus olhos confiantes fitavam o público, sua voz transbordava em meus ouvidos.
'Shall I call her good when she proves unkind?'
O primeiro verso ainda ecoava nas curvas do meu labirinto, meu cérebro ainda ruminava a pergunta: can she excuse my wrongs? Estendi minha mão para fora da cama e peguei o celular. O rosto dela desaparecera nas vilosidades do lençol, assim que a luz do aparelho acionado retraiu minha pupila dolorosamente.
'Are those clear fires which vanish into smoke?'
Sem novas mensagens. Probably she can not excuse my wrongs, after all. She had vanished into smoke... Larguei o telefone no chão e virei-me para o outro lado.
'Must I praise the leaves where no fruit I find?'
Ao ouvir este excerto meus músculos enrijeceram, como se ela os dissesse com aquele ar cínico estampado no rosto e a voz fluindo como m/fel. ('No, no, where shadows do for bodies stand, thou may'st be abus'd if thy sight be dim?') Tateei o rádio em busca do botão de stop, mas a voz dela ainda inundava o meu breu, meu escuro, minha consciência.
'Cold love is like two words written on sand, or two bubbles which on the water swim'
Ela não parava, não me deixava contrargumentá-la, não me dava tempo suficiente para tomar ar entre aquelas pausas... Ah, o stop. O silêncio escorreu das caixas de som.
E eu, que deveria estar mais calmo, repetia em minha cabeça o primeiro verso, o primeiro trecho, tão renascentista, mas tão infinitamente perturbador, para mim.
She won't excuse my wrongs, my cold love, my "fruitlessness"... well, me. Cutuquei os botões do rádio e, com uma série já bem coordenada de movimentos, liguei a rádio e ouvi Raul Seixas se esgoelando em um 'não há nada neste mundo que eu não saiba demais'. Sorri, me acomodei e inexplicavelmente dormi.