04 janeiro 2009

( . )

I feel empty.
It came so suddenly...

03 janeiro 2009

Kitty, kitty...

__Já estava tarde. Era a luz do poste que fraquejava diante da madrugada em potencial, ou eram os olhos obnubilados de Ray que pestanejavam como se arfassem dolorosamente. Ele se recostou na porta corrida de uma loja, fazendo um ruído de sofrimento metálico. Fez uma careta de insatisfação com o barulho e escorregou pela porta pichada até sentar-se. Ainda segurava uma garrafa semi-vazia de uísque, que levara embora ao sair aos uivos da casa da namorada.
__Seu estômago revirava-se, sua garganta ardia. Mesmo assim, aproximou o bocal e sorveu o líquido. Em seguida, arrotou. Suas pernas estavam trôpegas, e ele resolveu não tentar se levantar. Já não havia ninguém na rua, nem mesmo os costumeiros sem-teto. Ray suspirou e olhou para cima. O céu parecia veludo negro, não havia nenhuma estrela à vista; nem mesmo a lua sorria. Fechou os olhos e apoiou a cabeça na porta, que gemeu mais um pouco.

__Alguém que passasse por ali veria um jovem na faixa dos dezenove anos, vestindo jeans surrados, tênis imundos, com cabelos desgrenhados confundindo-se com a camiseta preta. Em sua mão jazia uma garrafa quase vazia.

__“Hello, Ray.”
__Ele abriu os olhos. Sua visão estava embaçada, então pestanejou algumas vezes, concentrando-se em discernir quem lhe falara. Defronte de si não havia ninguém, nem dos seus lados. Pela rua vinha vindo um pequeno vulto, andando sem pressa. Ray franziu a testa. It was a cat.
__ Ele bufou enquanto passava a mão pela testa, afastando os cabelos acortinados do hematoma que se alastrara pela maçã do seu rosto.
__“Are you trying to avoid me? What a silly boy…” The voice was closer, although nobody was there. E por que raios alguém estaria falando inglês, em plena Francisco Glicério, de madrugada?
__Ray tentou levantar-se, apoiando na indignada porta comercial. Ela guinchou. Seu cérebro registrou uma considerável mudança na viscosidade do chão, traiçoeiramente balouçante.
(...)

01 janeiro 2009

All is quiet, on new year's day...

__He whispers in my ears with softly kindness. The rain shuts up the fireworks's booms, and a low sound of an harmonica echoes, smoothly. No one stayed in the flats, all of them had rather go to the beach, jump seven (in the case of Laerte's God, only six, 'cause He rests in the seventh) waves.
__The world began, again. And I'm just here, quite reckless about the blow of events, just having tickles in my ears, wondering about something rather inconceivable.
__This almost emptyness of thoughts, this sensation of floating in something warm and velvet is quite pleasant, even with a touch of gloom.

29 dezembro 2008

The Chronicles of Narnia (The Magician's Nephew)

__"Now, sir" said the Bulldog in his business-like way, "are you an animal, vegetable, or mineral?" That was what it really said; but all Uncle Andrew heard was "Gr-r-r-arrh-ow!"

- C. S. Lewis

25 dezembro 2008

The Graveyard Book

__The man Jack met them halfway down the stairs. Mr. Dandy grinned at him, without any humor but with perfect teeth. "Hello, Jack Frost," he said. "I thought you had the boy."
__"I did," said the man Jack. "He got away."
__"Again?" Jack Dandy's smile grew wider and chillier and even more perfect. "Once is a mistake, Jack. Twice is a disaster."
__"We'll get him," said the man Jack. "This ends tonight."
__"It had better," said Mr. Dandy.
__"He'll be in the graveyard," said the man Jack. The three men hurried down the stairs.
__The man Jack sniffed the air. He had the scent of the boy in his nostrils, a prickle at the nape of his neck. He felt like all this had happened years before. He paused, pulled on his long black coat, which had hung in the front hall, incongruous beside Mr. Frost's tweed jacket and fawn mackintosh.

- Neil Gaiman, The Graveyard Book

22 dezembro 2008

Shrimps..?

I wonder why isn't an insult to say that someone has a head of shrimp; 'cause... y'know, have the skull filled with shit isn't a pleasant thing to hear, at all.

15 dezembro 2008

Invention II in C minor - Johann S. Bach.


Eram dois. Ora era ela ronronando ao pestanejar das asas e ele cobiçando-a ao vê-la do chão - a boca longe, pregada no céu, num riso zombeteiro.
Eram dois. Ora ele pousando em seu úmido focinho, e ela fechando os olhos.
Era ela na terra e ele no ar.
Era ela no ar e ele na terra.
Eram os dois na terra. Um sobre a planta, outro no parapeito da janela.
Eram os dois no ar. Um em pleno salto, outro no bafejar da brisa.
Eram sempre dois, nunca um. Ininterruptos, interligados, independentes, inconfundíveis.
Eram os dois invenções;
eram o muxoxo morno e o murmúrio melífluo.
Mas no derradeiro fim, unidos. ternamente.

13 dezembro 2008

Relances - II

__Era dia; um qualquer, com sol, com nuvens, vidas e todas aquelas coisas que se têm em um dia. O clima era diáfano, de luz irradiante, e o tempo seguia, com inadiáveis afazeres cotidianos. Neste dia, neste momento, havia a rapariga dentro de uma casa - que, diga-se de passagem, não era sua. Seu nome, segundo constavam os arquivos, era Malicia Darktan. Loura, magrinha, 'desaparecida' desde o seus seqüestradores foram assassinados, com... adivinha?
__Irène sorriu. Era uma filhote peculiar.

__Malicia estava na sala, entretida com um quadro surrealista de gatos quando ouviu sirenes se aproximando. Ela se mudara há pouco tempo para aquela casa, e não fizera nada de errado! Tudo havia saído exatamente como das outras vezes, e entretanto eles estavam ali. Seus poros da pele arrepiaram, seu desespero a(s)cendeu. A sirene espetava sua audição e absorvia seu cérebro num oceano de insensatez.
__Os fundos; pensou. E rumou.

__As sirenes chegavam à casa. 'Oh geez...we brought company?..' Irène praguejou e olhou de esguelha para o companheiro, indicando o jardim da rua com a cabeça. Ele assentiu e rumou para os policiais com a foice reluzindo ao sol; a jovem se dirigiu para dentro.

__'Hey'; uma figura entrava pela porta dos fundos. Malicia recuou, com o coração pulsando mais na boca do que entre os pulmões. 'Hey heey, take it easy folk, come closer, I've to take you out of here' dizia a silhueta, entrando com uma pressa mal dissimulada. Darktan retrocedeu, vendo uma jovem mulher trajando um longo poncho verde, adornado por uma cascata de cabelos castanhos. Uma das mãos estava estendida na sua direção, mas a outra mantinha-se convictamente imersa na lã.
__Ouviram gritos.

__Louis deu a volta na casa, saindo pela lateral. Os policiais o viram de imediato e logo começou o alvoroço, ele suspirou. Quatro bolas de fogo se materializaram à sua volta, e em seguida começaram os gritos.

__Malicia assustou-se com o ruído do lado de fora. Sem dar ouvidos à apressada forasteira, ela subiu as escadas correndo. No corredor dos quartos, sentiu uma mão segurar-lhe o ombro com firmeza e gritou de susto. 'Come with me, ok? We've no time' Darktan parou, emudeceu e ficou olhando a moça, que interpretou como um tênue (as)sentimento. Ela soltou então seu ombro, afastou-se alguns passos com extrema rapidez e puxou de dentro do poncho um pedaço generoso de papel alumínio. Malicia entreviu uma mão deformada segurando o rolo laminado.
__Parecia uma... garra?

__Três policiais correram, em pânico. Outros falavam no comunicador. O resto apontava para ele e o cercava, com cautela. Pena que ele não podia fazer churrasquinho.

__Esticou o rasgo espelhado e com um movimento desajeitado e brusco, deu uma (patada?) no papel. Darktan olhou com um ar nauseado: era como uma grande pata de lobo...

__Aproximava-se um helicóptero, e Louis discerniu outro escalão de gente encarrapitado nele.
__'Oh, shit'.

__Aquele pedaço de papel alumínio começou a irradiar algo semelhante a um flash prolongado. Irène afastou o braço da fonte de luz e fitou a filhote; que não se mexeu. Tinha um helicóptero lá fora.

__Louis desandou em desabalada corrida para os fundos da casa. Uma bala errante acertou-lhe na altura dos rins, rendendo-lhe um rosnado nada amigável.

__A moça ouviu o tiro e exasperou-se. Apanhou o pulso da filhote e arrastou-a para a luz, para a Umbra.

__Louis parou derrapando na frente da janela dos fundos, enquanto sentia a pele se reintegrar. Ergueu a mão e arranhou a superfície vítrea com violência. Sem hesitar, pulou para dentro do centro de ofuscação.

__Mal haviam observado o ambiente distorcido, Malicia começou a sentir uma sensação adormecer-lhe a consciência. Como se dos pulmões subisse uma ardência avassaladora, ou como se um lobo subisse-lhe pela garganta.
__Irène sentiu o pulso da filhote engrossar sobre sua mão, e um grunhido gutural bafejar-lhe a nuca. Foi aí que correu.

__Louis pulou de qualquer jeito para dentro do rasgo e viu, à poucos passos de distância, uma loura garota encurvar-se sobre a própria altura, e crescer. Crescer. Crescer. Um poncho balouçante já sumia ao longe, no ar distorcido. Ele correu, para longe.

08 dezembro 2008

Can She Excuse My Wrongs (by John Dowland)

'Can she excuse my wrongs with virtues cloak?'
Eu mirava sua face transmutar-se no teto envolto em breu, seus olhos confiantes fitavam o público, sua voz transbordava em meus ouvidos.
'Shall I call her good when she proves unkind?'
O primeiro verso ainda ecoava nas curvas do meu labirinto, meu cérebro ainda ruminava a pergunta: can she excuse my wrongs? Estendi minha mão para fora da cama e peguei o celular. O rosto dela desaparecera nas vilosidades do lençol, assim que a luz do aparelho acionado retraiu minha pupila dolorosamente.
'Are those clear fires which vanish into smoke?'
Sem novas mensagens. Probably she can not excuse my wrongs, after all. She had vanished into smoke... Larguei o telefone no chão e virei-me para o outro lado.
'Must I praise the leaves where no fruit I find?'
Ao ouvir este excerto meus músculos enrijeceram, como se ela os dissesse com aquele ar cínico estampado no rosto e a voz fluindo como m/fel. ('No, no, where shadows do for bodies stand, thou may'st be abus'd if thy sight be dim?') Tateei o rádio em busca do botão de stop, mas a voz dela ainda inundava o meu breu, meu escuro, minha consciência.
'Cold love is like two words written on sand, or two bubbles which on the water swim'
Ela não parava, não me deixava contrargumentá-la, não me dava tempo suficiente para tomar ar entre aquelas pausas... Ah, o stop. O silêncio escorreu das caixas de som.
E eu, que deveria estar mais calmo, repetia em minha cabeça o primeiro verso, o primeiro trecho, tão renascentista, mas tão infinitamente perturbador, para mim.
She won't excuse my wrongs, my cold love, my "fruitlessness"... well, me. Cutuquei os botões do rádio e, com uma série já bem coordenada de movimentos, liguei a rádio e ouvi Raul Seixas se esgoelando em um 'não há nada neste mundo que eu não saiba demais'. Sorri, me acomodei e inexplicavelmente dormi.

29 novembro 2008

American Pie

A long, long time ago...
I can still remember
How that music used to make me smile.
And I knew if I had my chance
That I could make those people dance
And, maybe, they'd be happy for a while.

But february made me shiver
With every paper I'd deliver.
Bad news on the doorstep;
I couldn't take one more step.

I can't remember if I cried
When I read about his widowed bride,
But something touched me deep inside
The day the music died.

So bye-bye, miss american pie.
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin' whiskey and rye
Singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

Did you write the book of love,
And do you have faith in God above,
If the Bible tells you so?
Do you believe in rock 'n roll,
Can music save your mortal soul,
And can you teach me how to dance real slow?

Well, I know that you're in love with him
`cause I saw you dancin' in the gym.
You both kicked off your shoes.
Man, I dig those rhythm and blues.

I was a lonely teenage broncin' buck
With a pink carnation and a pickup truck,
But I knew I was out of luck
The day the music died.

I started singin',
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin' whiskey and rye
And singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

Now for ten years we've been on our own
And moss grows fat on a rollin' stone,
But that's not how it used to be.
When the jester sang for the king and queen,
In a coat he borrowed from james dean
And a voice that came from you and me,

Oh, and while the king was looking down,
The jester stole his thorny crown.
The courtroom was adjourned;
No verdict was returned.
And while Lenin read a book of Marx,
The quartet practiced in the park,
And we sang dirges in the dark
The day the music died.

We were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin' whiskey and rye
And singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

Helter skelter in a summer swelter.
The birds flew off with a fallout shelter,
Eight miles high and falling fast.
It landed foul on the grass.
The players tried for a forward pass,
With the jester on the sidelines in a cast.

Now the half-time air was sweet perfume
While the sergeants played a marching tune.
We all got up to dance,
Oh, but we never got the chance!
`cause the players tried to take the field;
The marching band refused to yield.
Do you recall what was revealed
The day the music died?

We started singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin' whiskey and rye
And singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

Oh, and there we were all in one place,
A generation lost in space
With no time left to start again.
So come on: jack be nimble, jack be quick!
Jack flash sat on a candlestick
Cause fire is the devil's only friend.

Oh, and as I watched him on the stage
My hands were clenched in fists of rage.
No angel born in hell
Could break that satan's spell.
And as the flames climbed high into the night
To light the sacrificial rite,
I saw satan laughing with delight
The day the music died

He was singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin' whiskey and rye
And singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

I met a girl who sang the blues
And I asked her for some happy news,
But she just smiled and turned away.
I went down to the sacred store
Where I'd heard the music years before,
But the man there said the music wouldn't play.

And in the streets: the children screamed,
The lovers cried, and the poets dreamed.
But not a word was spoken;
The church bells all were broken.
And the three men I admire most:
The father, son, and the holy ghost,
They caught the last train for the coast
The day the music died.

And they were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin' whiskey and rye
Singin', "this'll be the day that I die.
"this'll be the day that I die."

They were singing,
"bye-bye, miss american pie."
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
Them good old boys were drinkin' whiskey and rye
Singin', "this'll be the day that I die."

Don McLean

"Everyday; it's getting closer, going faster than a rollercoaster..."


Like a huuuge rollercoaster, I'm in the same rail. As ever, maybe.

19 novembro 2008

"Lava a roupa todo dia... qu'alegria..."

Barulho de porta fechando. Suspiro de desalívio. Uma mulher se aproxima. Há uma enorme confusão de panelas pratos talheres e gordura. Todas as manifestações de gordura imagináveis. Gordura flutuando, gordura grudada, gordura embasbacada, gordura gordura gordura. Ela olha a pia. Exala um ar profissional. Apanha a chaleira em cima do fogão e enche d'água. Acende a boca de fogo e afasta-se. Abre a janela, volta.

O bule assovia. A mão apanha-o e derrama a água chiando nas pilhas incomensuráveis (que exagero, é só louça suja). Senta e espera. Levanta, apanha a esponja, enche-a de detergente e começa. Esfrega gira larga pega esfrega gira esfrega. A pilha vai mudando de posição, ordena-se, espalha-se. O trabalho é automático, ela ouve o filho ouvir música, o cão latindo, a vizinha gritando, o ônibus passando. A vida passando também e ela ali, tirando toda aquela gordura. Abre a torneira; a água corre, arrasta a comida pro ralo as bolhas a gordura. Fecha a torneira; apanha o pano. Enxuga gira enxuga enxuga cutuca sujeira esfrega põe na mesa. Repetida e infindavelmente. O cão vai volta e vai pela cozinha; espera a comida. A mulher larga o pano na cadeira e abre o armário debaixo da pia. Tira de lá um pote cheio d'água, despeja-o na pia e enfia de volta. Pega as panelas e coloca-as em volta do pote. Os pratos coloca no armário acima da pia. Os talheres vão para uma gaveta.

Louça derrocada: próximo passo. Sai pela porta da cozinha. Apanha uma vassoura e uma pá. Enxota o cão e vai para a sala.

15 novembro 2008

Composition #3 Inquisitor's Guide

In these last months, I've been receiving a lot of letters from my old colleagues from Rome, asking for help to tame a bunch of young priests, who don't seem to know how to deal with heretics. I've been retired since 1658, but my old friend Giuseppe Medici compelled me to write this short article of how to be a competent inquisitor.

At first, a good inquisitor must be cruel and be proud of it. This priest should let the heretic one or two days without eating properly (just some water and moldy breads) and sleep. It would be good if the psychological torture, which come before the physical one, were based in some research. About the last one, inquisitors have to be used to a lot of blood and gore; and it's interesting to be a litttle deaf: the cries aren't lovely at all.

Newcomers are used to making unbelievable mistakes. For example, inquisitor must not show mercy, and can't be easily frightened as well. It's not wise to stay close to the heretics, even if they're chained. And, finally, in any case the inquisitor should talk about yourself, these devils are very keen.

So, here we have some basic advice of how be a satisfying inquisitor. If you, newcomers, follow this humble guide, you shall be successful on your mission, given by God

God bless all of you.

by Francesco Michiavello

12 novembro 2008

Fogo.

Parecia vir de todos os lugares, assim como parecia vir de lugar nenhum. O calor sufocante fazia-o liberar o ar em arfadas que aguilhoavam suas costelas e fazia sua cabeça girar. Deve ser o inferno, pensou, e seus olhos estavam fechados com força, como se fizesse alguma diferença abri-los ou não. Quando deu-se conta disso quase sorriu, uma fagulha de racionalidade em meio àquele oceano de chamas que vinham de todos os lados. Abriu-os; estava tudo escuro, como era de se esperar de um cego. A fumaça entrava por entre os poros da pele por asfixirrespiração cutânea, expulsando todo o oxigênio escondido nas vilosidades de seu corpo para que este colaborasse com a combustão, do lado de fora. Sacudiu um braço em frente ao rosto para tentar afastar a massa de monodióxidos de carbonos, mas uma língua invisível açoitou seu antebraço, provocando uma ardência terrível. Urrou pela infeliz tentativa de acalmar seu corpo que ardia por oxigênio, expulsando o pouco que restava em seus pulmões por definitivo. Deu um passo para trás, para tentar desvencilhar-se da labareda que consumia seu braço, mas sentiu uma segunda em seu calcanhar, agarrando sua tenra carne com pulsante cadência. Já não tinha ar para expelir, já não podia respirar, seus ignóbeis olhos se recusavam a ver daonde vinham as dançantes chibatas etéreas, seu cérebro entrara em estado de pânico. Como diria Castro Alves, estava sem ar, sem luz, sem razão. Num arroubo de estertoras forças, correu cegamente pelo fogo que lhe consumia, enroscando em panos em chamas que lhe barravam o caminho e enroscavam-se em sua pele já quase inexistente, até que enfim chocou-se com uma parede, irradiadora de um calor mais impactante e ordenado, quase palpável; cambaleando, como um boneco que já não tem mais corda, tombou no chão - que lhe parecia então um fluido balouçante como o magma - e ficou ali, a servir de alimento para a fogueira, não restando no fim, nada mais que cinzas e um par de olhos sem pupila (sem contar o cheiro agradabilíssimo de carne queimada).

06 novembro 2008

O Caçador de Andróides

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"...Isidore entrou na sala e desligou a TV.

__Silêncio, que saltou das obras de madeira e das paredes o sufocou com um terrível e total poder, como se gerado por uma imensa usina motriz. Subia do chão, do carpete coçado que ia de parede a parede, soltava-se dos eletrodomésticos quebrados e semiquebrados da cozinha, as máquinas mortas da cozinha, as máquinas mortas que nem uma única vez haviam funcionado desde que estava ali. Escorria do poste de iluminação inútil da sala de estar, misturando-se com a vazia e muda descida de si mesmo do teto manchado por moscas. Conseguia, na verdade, emergir de todos os objetos dentro de seu campo de visão, como se ele - o silêncio - quisesse suplantar todas as coisas tangíveis. Daí assaltava não só seus ouvidos, mas também seus olhos. Ao lado do aparelho apagado de TV, experimentou-o como se fosse visível e, à sua própria maneira, vivo. Vivo! Antes, sentira com freqüência a sua austera aproximação; quando chegava, estourava sem sutileza, evidentemente incapaz de esperar. O silêncio do mundo não podia controlar mais sua cobiça. Não mais. Não, quando virtualmente vencera.

__(...) Mas, por esta altura, claro, ele mesmo estaria morto, outro fato interessante a prever, pensou, enquanto permanecia ali sozinho na sala de estar abandonada, apenas com o silêncio do mundo, um silêncio sem pulmões, que a tudo penetrava, irresistível."
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Philip K. Dick