28 julho 2008

Relances - I

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__As luminárias da rua dissipavam sombras na rua deserta. Pairava o silêncio mortal da madrugada. Um discreto Opel Olympia desacelerou a alguns metros da fábrica, e duas silhuetas saltaram do carro. O carro seguiu em frente, deixando para trás um casal hesitante e ligeiramente estranho um ao outro e ao ambiente. Uma jovem de cheios cabelos castanhos vestia um poncho andino verde-oliva; um de seus braços estava cruzado na barriga, e o outro acomodava um longo tubo oculto pela vestimenta. O homem mantinha-se a uma distância prudente de sua companheira, e examinava o lugar atentamente, apoiado numa foice. Trajava uma roupa desgastada e esvoaçante. O Opel logo sumiu de vista. Mantiveram-se em silêncio. A rapariga dirigiu a seu parceiro um olhar incisivo, que foi polidamente ignorado. Então encarou a fábrica e começou a se aproximar dela. Próximos à entrada haviam dois carros civis e sete viaturas, cujas sirenes silenciosas irradiavam seus metódicos clarões avermelhados. A porta de entrada do edifício estava arrombada.
__Um clarão surgiu no fim da rua, acompanhado de um som de explosão. Ambos observaram surpresos 'a distração' providenciada pelo dono do Opel. Eles ouviram a praguejação generalizada e os gritos de ordem seguirem o arranque dessincronizado de alguns carros. Cinco automóveis policiais passaram pela guarita e foram em direção à luminiscência alaranjada que irrompera com a explosão. Os dois carros oficiais que restaram estavam flanqueando a porta da fábrica.
__'Louis, vamos' sussurrou a jovem, pegando no pulso do homem para chamar-lhe a atenção. Ele observou-a com frieza e puxou o braço para si. A moça deu-lhe as costas e andou com cautela em direção à entrada da fábrica. Furtiva, passou pela guarita vazia e se escondeu da vista das viaturas atrás de um Dodge preto. Embora não conseguisse ver o interior do automóvel na sua diagonal, só havia um policial no carro à frente, e ele estava recostado no banco. Ela sorriu. Louis examinou seus passos e depois de alguns instantes seguiu-a. Assim que ele chegou, Irène foi se deslocando para a traseira da viatura oficial. Ao iniciar mesmo caminho, Louis sentiu uma sensação desconfortante apertar seu pomo-de-adão, e preocupado com isso, esqueceu totalmente da pouca coisa que sabia ter de fazer ali.
__Irène olhou para trás para ver onde o filhote estava, frações de segundo antes de ouvir um metálico ruído no vidro da viatura. Com o canto do olho constatou que o policial no interior do veículo pulou de susto e em seguida saiu do carro, com uma pistola já apontada e destravada para o vidro do passageiro. Louis encarou-o surpreso, como se saísse de um transe, depois recolheu sua foice e preparou-a. Dois outros policiais saíram da viatura adiante, com as armas também apontadas. 'Largue a foice, camarada' disse o mais próximo. Os outros se aproximavam.
__Irène praguejou. Agora era mais um para ir buscar depois. Todos estavam reunidos, cercando o filhote, que após algumas palavras secas soltara sua arma. Ela abaixou-se ainda mais e correu para a porta arrombada, enquanto o algemavam e o atiravam no chão, dirigindo-lhe um facho de luz na sua cara. O cara maior riu de alguma coisa que o algemado dissera e retrucou, em altos brados 'De que isso me interessa? Isso não é ponto turístico, ainda mais a essa hora da madrugada'. Os outros se afastaram, enquanto o grandalhão dizia 'Então vamos fazer um interrogatório' antes de chutar-lhe a boca do estômago. Irène retirou das costas sua cimitarra e saiu da recepção apagada da fábrica, indo furtivamente para onde o ar fedia mais a coisa ruim.
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__'Você está sozinho?' rugiu o policial. Louis resmungou qualquer coisa inaudível, recebendo uma coronhada na cabeça. 'Vamos, diga o que está fazendo aqui!' Ele replicou, com a voz rascante 'Nem eu sei'. O homem deu uma gargalhada 'É o que todos dizem, não é?' Guardou a pistola no cinto, ao lado do suporte dos suspensórios, e desafivelou um envernizado porrete. Seu corpo tingia-se de vermelho esporadicamente. 'Vou lhe apresentar uma amiga, então: Esta é a Palavra' Ele acenou com o porrete. 'Em reuniões costuma-se dizer que quem está com a Palavra sempre tem razão... e o que é isso, senão uma reunião?' Louis ouviu-a silvar vindo ao seu encontro, contra o ar parado. Seus lábios se abriram num rosnado quando uma repetina escuridão (re)ofuscou-lhe a vista.
__
__Irène estava terminando de subir as escadas quando ouviu gritos roucos e barulho de carne dilacerando, junto de metal amassado. Deixou escapar um sorrisinho. Já não era mais um filhote. Apressou a cadência, enquanto retirava de debaixo do poncho um braço torto enfaixado, com tufos de pêlos castanhos saindo de alguns pontos.

21 julho 2008

shhhh....

O sorriso singelo sumia insinuando-se entre as silhuetas esguias que silenciosamente saíam de cena.

16 julho 2008

"O Dia da Criação"

"Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado." - Vinicius de Moraes


Sua boca parecia ter chupado o cabo de um guarda chuva pela noite adentro. Uma trilha escorrera vertiginosa sobre suas maçãs, deixando um rastro de pele ligeiramente mais rígida que a maciez costumeira. O pequeno urso estava espremido no seu abraço agoniado e fones de ouvido pendiam do lado do travesseiro, desligados pela espera; junto deles havia um celular ligado e aberto na agenda de contatos - a bateria dava seus últimos suspiros. A inevitável luminosidade diurna viera, plúmbea como as asas de uma pomba veneziana, plúmbea como o pesar que envolvia o quarto. O vento açoitava o vidro das janelas com o guincho estridente dos ramos depenados. Emergiu o corpo das cobertas e enfiou os pés em uma pantufa.
O espelho defronte a cama delatava uma face inchada de olhos injetados. A vida ainda continuava, naquela situação péssima. Os soluços entalados, os gemidos abafados, as melodias opressivas, o orgulho perante a quebra.
"Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado"
Era sábado, então. Havia a praça, a combinação, nem tudo estava perdido. Águas de alívio subiram aos olhos, ela as afastou com impaciência. Elas poderiam esperar um pouquinho mais, só até ela poder enfim desabar nos braços de Alguém. Espirrou. Fazia frio.
Ainda desfilavam diante de si aquelas lindas idealizações, desafiadoras. Os cabelos ruivos em profusão, as alturas contrárias, os erros perdoados, os maus entendidos resolvidos... e um final feliz. Observando o louro acinzentado do agora, do real, do palpável, ela via com os olhos transbordantes que reservara a si mesma algo que era de longe muito distante do que queria, ou fingia querer.
"Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado"
Lavou o rosto, retirando o sal seco de suas bochechas. Mudou a roupa e tomou o café mais rápido que conseguiria, desviando de seus pais o máximo possível. A saturação de lágrimas não saía da iminência do dilúvio, e assim ela saiu de casa, depois de dar um beijo úmido em seu urso e apanhar sua mochila.
Foi-se no ônibus verde, pegando conexão com outro e enfim descendo numa avenida arborizada. As coisas pareciam um pouco fora de órbita, mas ela aceitou isso como sua condição interior.
"Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado"
Chegou atrasada à praça, mas nada de Alguém. De prontidão, o líquido morno respingou das pálpebras pesadas, e retirando os óculos ela secou o rosto, com a manga. Vai que tem um Outro Alguém por aqui. Por uma das poucas vezes não queria vê-Lo, e prestativo como sempre, ele não estava lá. Se aproximou do lugar adotado como ponto de encontro. Nada de ninguém. A praça parecia meio morta, as barracas eram poucas, as pessoas, estranhas.
"Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado"
Mas era sábado. Isso era definitivamente estranho, não havia viv'alma ali! E cedo propriamente não era, já passava das onze e um terço... talvez estivessem dando uma volta; a praça era grande, afinal. Fez o círculo e parou de novo, no ponto de partida. E nada, de ninguém. Sequer um conhecido. As pessoas passavam por ela, enquanto ela os fitava, decepcionadamente perplexa. Onde estava todo mundo? O que acontecera com o ritual de sábado? Eram férias até, oras! Todas os fins de semana, todas as pessoas... nem mesmo o palhaço, o infernizador, não restava ninguem ali.
"Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado"
Ela se sentou num banco, onde tinha um visão perfeita da passagem, do mundo. O tempo era varrido pelo vento, deixando somente o frio e o desolamento. Nada de ninguém. Ela pegou o celular e ligou para Alguém, tentando conter a sensação de abandono, de estranhamento e de desalento em torrente. Precisava ouvir uma palavra tranquilizadora, uma garantia de que não estava realmente no lugar certo mas no lugar errado, que ainda conhecia alguém, que não estava sozinha. Caixa Postal. Menos calma, tentou a casa. Sem resposta.
"Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado"
O guarda olhou de relance, enquanto ela abraçava os joelhos e se esforçava ferrenhamente a não chorar tudo ali, de uma vez. O tempo passava e ela tornava a ligar, não aceitando que o mundo de repente sumira, no relance do espelho. Nada. Nada. Nada. Pensou num amigo que poderia estar trabalhando por ali e ligou, já em vias de desespero. Chamou uma eternidade e enfim alguém atendeu. Mas não era ele, era uma moça. 'Não, ele não está... foi para o colégio'
"...E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado"
Ela enfim se levantou, procurou mais um pouco, embora só surgissem na sua visão estranhos e mais estranhos. De olhos rasos desistiu e deixou a praça, lugar não mais tão seguro, tampouco acolhedor. As pessoas a encaravam com um misto de pena e diversão.
Sozinha, ela desceu as ruas, com a face novamente lavada. A sensação de ter estourado a bolha que envolvia seu mundo a deixava vagando ali, de olhos vermelhos, numa dimensão de seres insólitos.
"Porque hoje é sábado"

14 julho 2008

Um Conto a Quatro Mãos (XIV)

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"Minha meta, minha metade
Minha seta, minha saudade
Minha diva, meu divã
Minha manha, meu amanhã" - Lenine
__________

__Muitos olhos. Olhos demais, fixos nele, daquele jeito insuportável. Os ruídos retomaram-se, alvoroçados. Mas que raios..? Abaixou então os olhos para si, enquanto ouvia o Anfitriã entoar, por entre seus dentes perfeitos

''Ah, Mochara, não esperava isso de você''

__Houve uma pequena pausa. Sua aparência era idêntica a de instantes atrás.

''Huhuh, vejam só, que insistência
Sustentar por aqui este ar tão blasé
Deixe aqui fluir sua aparência
Tão verdadeira como essas que vê''


__Sua percepção corporal ao som deste cântico era periclitante, antes mesmo de seus olhos embaçarem numa estranha confusão mental. Rodopiava tudo, todos, numa totalidade embaralhada, de modo que achou ele melhor cerrar as pálpebras. Ao cabo de alguns instantes a balbúrdia foi acalmando, e Můjpřítel começou a sentir sua pele lisa; o vento deslizava como se escorregasse. Sua pelagem aparentava haver desaparecido. Sentia-se volátil como uma bexiga e leve, muito leve, como a sensação de um ébrio ao caminhar; parecia estar flutuando...
__Seus olhos focaram então em seu corpo. O esforço para enxergar a si mesmo parecia alongá-lo, se bem que aquele lugar era todo meio estranho... Viu-se então translúcido, quase transparente, com a luz trespassando-o e desprezando uma sombra tênue e tremelicante no chão. E o chão, seco e poeirento, encontrava-se longe de seus pés, ou de algo que deveria sê-los. Sua pele estava lustrosa, apesar de transparente.
__O Anfitriã encarou-o, divertido, puxando em seguida de sua veste uma corrente fina com um belo relógio de bolso, prateado. Fitou sua imagem e arregalou os olhos (ou seus correspondentes naquela situação estranhíssima), estupefato. A jovem do caderno sorriu, e a garotinha encarrapitada no Anfitrião anunciou, numa voz frágil e soprada 'Olha Sarah, ele parece um pepino!'. Sarah assentiu, e em seus brilhantes olhos Meumigo viu e aceitou que definitivamente era uma bolha. Um pepino-bolha.

12 julho 2008

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

__"A traição. Desde nossa infância, papaei e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido. (...)
__Mais uma vez, estava possuída pelo desejo de trair: trair sua traição inicial. Anunciou ao marido (não via mais nele um excêntrico, mas sobretudo um bêbado incômodo) que iria deixá-lo.
__Mas se traímos B., por quem tínhamos traído A., isso não quer dizer que vamos nos reconciliar com A. A vida do artista de quem se divorciara não se parecia com a vida de seus pais traídos. A primeira traição é irreparável, ela provoca, numa reação em cadeia, outras traições das quais cada uma nos distancia cada vez mais do motivo da traição inicial.
(.......)
__Já conhecemos a resposta: quando ela traiu seu pai, abriu diante de si uma longa estrada de traições e cada nova traição a atraía como um vício ou como uma vitória. Ela não quer ficar dentro da ordem e nela não ficará! Não ficará sempre na ordem com as mesmas pessoas e as mesmas palavras! É por isso que está transtornada com sua própria injustiça. Esse sentimento não é desagradável, ao contrário, ela tem a impressão de ter conseguido uma vitória e sente como se um personagem invisível a aplaudisse.
__Mas a embriaguez logo se transforma em angústia. Era preciso um dia chegar ao fim da linha! Era preciso um dia terminar com essas traições! Era preciso parar de uma vez por todas!
__Era noite e ela andava com um passo apressado na plataforma da estação. O trem para Amsterdã já estava à espera. Procurava seu vagão. (...)"

07 julho 2008

Leather - Tori Amos

Ouvi essa música depois de escrever o excerto anterior, e ela me rendeu alguns pontos comuns.
Estado pós-Neil Gaiman ligado.

Look I'm standing naked before you
Don't you want more than my sex
I can scream as loud as your last one
but I can't claim innocence

Oh god could it be the weather
Oh god why am I here
If love isn't forever
and it's not the weather
Hand me my leather

I could just pretend that you love me
The night would lose all sense of fear
but why do I need you to love me
when you can't hold what I hold dear

Oh god could it be the weather
Oh god why am I here
If love isn't forever
and it's not the weather
Hand me my leather

I almost ran over an angel
He had a nice big fat cigar
"In a sense" he said "you're alone here
So if you jump you best jump far

Oh god could it be the weather
Oh god why am I here
If love isn't forever
and it's not the weather

Oh god could it be the weather
Oh god it's all very clear
If love isn't forever
and it's not the weather
Hand me my leather

30 junho 2008

~#~

Ensaiou um passo leve, arrastando o pé em ponta pelo chão. Seu joelho doía. Manteve o sorriso no rosto e mudou o apoio. Ainda latejava, enquanto o rapaz sério e concentrado a espiava sentado no chão. Tinha o ar absorto em seus movimentos, fazendo sua boca secar e a pele queimar. A sala estava escura, vazia e lisa. Nada se movia, exceto sua tez esbranquiçada nadando em fluido. Procurou fixar o olhar em alguma coisa, mas tudo o que via era chão e paredes nuas. Esparsas janelas denotavam um céu noturno e fechado, ao ponto de ruína. Essa apoluição visual incomodava-a, não conseguindo manter o olhar em nada. Seus membros deslizavam e sua atenção recaiu novamente ao rapaz que a observava, consumindo seus passos. O tempo escorria entre eles, como o arco rascante numa corda. O clima era choroso, pesado como o céu, e sobre sua mente lamentava um violoncelo em opressiva melodia.
O moço levantou, sem dela tirar os olhos. Ela parou, defronte a ele, com os membros despidos relaxando gradativamente. A chuva começara.
Deu as costas e cobrindo a cabeça com o capuz do casaco, ele abriu a porta e saiu para o mundo, deixando-a entreaberta. Ela ficou ali, diante da poça que avançava lânguida. A máscara caiu de sua face, deixando escapar pesar que aparvalhava sua vista. Encolheu-se perante o ar gélido que percorria o corpo em baforadas suaves, e abaixando apanhou um grande moletom escuro para ocultar-lhe a pele pulsante.

10 junho 2008

Quotidiano.

Tudo dentro e fora do alcance. Perto, mas assaz longínquo. A mão estendida estilo Criação de Adão, no gesto patético do abandonado, arrependido. O tempo escorrendo na areia áspera e rascante da ampulheta.
E sob o véu suave do silêncio, ouvem-se sussurros cantando a queda do mundo.
Mas este mundo não cái, levita no vácuo. (sim, no vácuo)
Já se desvencilharam da realidade hoje?

27 abril 2008

Ultimamente...

Tava querendo sentir mais, respirar mais.
Mas essa carruagem só traz gás carbônico.

12 abril 2008

Um Conto a Quatro Mãos (XII)

"Who will walk through the mirror door 
Will there be music, or will there be war?" - The Who
____

///Com os braços repletos delas e dos bolsos espiando outras, um homem veio andando à frente, com suas doces cobras de olhares faiscantes; logo atrás veio uma senhorinha de mãos dadas com uma pequena criança carregando três bonecas ruivas apertadas junto ao peito. Passando por todos numa velocidade irregular, um senhor andava rápido e muito devagar, com o olhar perdido em algum ponto além. Acompanhado de um tilintar irritante de um colossal molho de chaves vinha uma figura magérrima e encurvada; os pontos negros encovados sobre olheiras crônicas fitavam o garoto que andava ao seu lado batendo fortemente os sapatos barulhentos no chão, ouvindo algo no walkman e munido de brinquedinhos de cachorro - dos que fazem 'fyííí'. Dois homens imundos carregavam um terceiro, estático com os braços esticados pra cima, rígido como um aspargo. Um quarentão impecável conduzia um adolescente de olhos vendados; o canto de sua boca tremia e ele parecia se concentrar em não olhar para o conjunto que fedia à sua frente. Por último, seguia tímida uma jovem com uma pasta debaixo do braço e no colo uma pequena garotinha que ressonava tranqüilamente.
///Um cheiro incômodo se infiltrou nas narinas sofridas de Meinfreund. O Anfitrião fechou o espelho com um cutucão da bengala e com a voz cristalina fez-se ouvir sobre os sapatos que pisavam em sua voz como pisavam no piso de tacos de madeira.

"Ei! venham por aqui, minhas crianças

Vamos à sala, peço-lhes urgência
Vamos à sala, sem tardança
Rapazes, cuidado com o Aspargo (dai-me paciência!)

Temos assuntos a tratar
Pela sala sairemos
Iremos para um belo lugar
E pela sala voltaremos

Sigam para o espelho do próximo ambiente
Encantar-se-ão com o nosso destino
Mas à caminho, meus amores, é urgente!
Luís, seja os olhos de Estrôncio! Por São Peregrino!"

\\\O adolescente de olhos vendados tropeçou numa irregularidade do tapete, sendo amparado pelo quarentão, que balbuciava desculpas. A Anfitriã lançou à Amicomio um olhar convocador.

11 abril 2008

Violinista.

Estava no mais frenético deslizar de dedos convulsos pela superfície preta e branca, em fortissimos e pianos, com o suor brotando dos poros, a face encabrunhada pela concentração sofrida. Sobre o final acorde, de fermata encabeçado, ele afastou os braços ainda vibrantes de esforço, com rapidez. Levantou-se do banco metendo-se debaixo do chuveiro de água fresca e da sombra da madrugada, ao apagar a luz.
O líquido invisível escorria sob sua pele.
E lá estava ele, de pé diante de uma multidão espectadora, aguardando de olhos vidrados. Cortinas vermelhas insinuavam-se na periferia de sua visão, e suas mãos seguravam uma lustrosa e leve peça de madeira. Pasmo, encarou todos aqueles homens elegantemente vestidos e mulheres de leques floreando. Vestido num terno bem ajustado, ele viu o fatídico problema, surgido em suas mãos, a ser consumado por um arquejar de crina de cavalo. Os dois fs o fitaram, inexpressivos. Onde estava o luzidio instrumento de cauda esparramada? Mai ha preso un violino per suonare. Come se fa adesso?
Pensamentos interpelavam-se à caminho da boca, que para não entrar moscas permaneceu bem fechada. De música, só o piano. Que raios faria com um violino na mão e um teatro esperando?
Um movimento furtivo captou-lhe a atenção. Um colega de piano, mirrado e tímido, entrou no palco carregando singelamente uma estante com uma imodesta partitura. Postando-a constrangido na sua frente, murmurou um constrangido 'sie ist einfach' sumindo em seguida. Sua mente registrou algo como 'pra você essa é bico'. Ele encarou a única clave e a enchente de notas, apreensivo. Posicionou o violino junto ao pescoço e preparou o arco. O teatro suspendeu a respiração. Pensando merda, falou scheisse e imaginando teclas, atacou as quatro cordas num fortissimo in-fusivo. Despejou a melodia galopante repetindo mentalmente que não sabia tocar violino e seu instrumento era piano. O som atravessava seus ouvidos sem deixar vestígio de continuidade. Mas o piano, o piano, só o piano...
A água começou a esquentar, sobressaltando-o. Um suave ronco interrompeu-se em sua boca. Tinha uma pedra sabão firmemente segura na altura do ombro.

(baseado num sonho real :])

06 abril 2008

Crise

Ela chegou um dia naquele ponto em que a consciência se torna pungente sobre todas as decisões que tentam se passar despecebidas, inconscientes; feito cachorro que tenta entrar em casa para pegar alguma guloseima que caiu no chão, tentando não despertar a atenção do dono que faz o almoço. Quando não se tem mais o 'sem querer'. Chegou ao ponto de controlar perfeitamente o humor, feito titereiro com a marionete da própria personalidade, do próprio corpo, de si mesmo. Explorou os limites até tê-los todos mapeados, delineados com perfeição.
Mas a paz que deveria chegar com essa sapiência, se perdeu no caminho.
Como se houvessem dois seres pensantes dentro de uma só carcaça, um submisso ao outro. Quando o pobre-coitado tenta timidamente se mover, se erguer, sussurrar, o senhor-racional lança um olhar canto-de-olho beligerante, numa incansável imposição mental entre o dominador e o dócil dominado.
O esgotamento se instalou nela, ao perceber cada motivo de todas suas ações pensamentos coisas estúpidas banais. Clamou por paz, dada a irreversibilidade da situação. Ela chorou para ser menos indecisa, insegura e triste.
O triste fado da constestação finalmente soltou todo o seu peso sobre os seu frágeis ombros, afundando-a num oceano chumbo de perguntas sem resposta, de relacionamentos capengas, de horizonte cinza.
Ela suspirou, entorpecida, em seguida mexeu os dedos gelados de frio que roçavam no piso onde estava sentada, encarando o escuro.

29 março 2008

Um Conto a Quatro Mãos (X)

'Good morning, good morning, Dear!'
Sarah abriu os olhos. Um metrônomo tiquetaqueava abafado, em um ambiente outro.
Em dilúvio, est(r)alou as mãos, pescoço maxilar pulsos cotovelos vértebras virilha joelho, tornozelo e finalmente os dedos do pé. Suspirou de alívio, sorrindo para o teto sóbrio.
Soergueu-se da cama. O lençol escorregou pela pele lisa, oculta sob o véu do breu.
Pantufas, pantufas... pantufas? Ah, sim, aqui estão as pantufas. Agora, a camiseta.
Vestindo uma enorme camiseta e um par de pantufas felpudas, Sarah apanhou seu bloco de desenho, um lápis e saiu para o corredor. Tec tec tec tec.

Nuvens prateadas voejavam a sua volta, como lontras dentro d'água. O Anfitriã encarava-o empoleirado num pico à distância, com a bengala fazendo um elegante ângulo agudo com seus pés.
As nuvens se dissipavam, retornando a um cenário escuro. Um leve risquejar sub-traíra o silêncio. O moço entreabriu as pestanas secas e uma silhueta borrada se destacou do ambiente escuro, debruçada sobre o colo.
A um resmungo seu, o vulto assustou-se e sumiu feito animal silvestre.
O pobre moço, envolto em bandagens, virou para o outro lado e dormiu.
E sonhou com as sebes altas e sussurrantes, regadas a singelas melodias de um cravo bem temperado.

A Anfitrião saía do quarto amarrando seu roupão para buscar um uísque quando Sarah passou apressada com seu tão familiar bloco de desenho na mão. Era cedo para a Pequena empipocar por aí. El' assistiu-a um pouco até ouvir um bip prolongado vindo do escritório.
Arrancou o longo papel de poucos caracteres da boca do fax, sorvendo o conteúdo - líquido e gráfico - com um ar grave. Logo após de passar os olhos pelo vômito maquinal, abriu uma gaveta e queimou-o com um isqueiro de prata.



(desculpem-me a demora)

12 março 2008

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street

Estive na quarta-feira passada no Kinoplex para assistir o musical "Sweeney Todd", dada a grande incidência de comentários favoráveis, e o meu interesse no filme (elenco, enredo...)
"SYNOPSIS: Johnny Depp and Tim Burton join forces again in a big-screen adaptation of Stephen Sondheim's award-winning musical thriller "Sweeney Todd." Depp stars in the title role as a man unjustly sent to prison who vows revenge, not only for that cruel punishment, but for the devastating consequences of what happened to his wife and daughter. When he returns to reopen his barber shop, Sweeney Todd becomes the Demon Barber of Fleet Street who "shaved the heads of gentlemen who never thereafter were heard from again." Joining Depp is Helena Bonham Carter as Mrs. Lovett, Sweeney's amorous accomplice, who creates diabolical meat pies. The cast also includes Alan Rickman, who portrays the evil Judge Turpin, who sends Sweeney to prison and Timothy Spall as the Judge's wicked associate Beadle Bamford and Sacha Baron Cohen is a rival barber, the flamboyant Signor Adolfo Pirelli. [Site Oficial]"

Certo, terminada a sessão, estava eu convencida de acabar de ter assistido um filme 'ultra-romântico' (Segunda Geração do Romantismo). O fato de estar vendo esta escola artística em literatura só me encheu de evidências, que exponho a seguir. (As pessoas que estiverem interessadas em assistir o filme sem spoilers, não leiam o que vem abaixo)
  • Presença da Mulher Romântica
A esposa de Benjamin Barker (Mr. Todd) - Lucy Barker, é de constituição frágil, pele branca, delicada, educada. Só faltava ser doente, coisa que sucede ao longo de sua vida, depois de seu envenenamento (vê-se no seu rosto de mendiga).
A filha de Barker - Johanna, segue o mesmo tipo estético da mãe ->
  • Pai (da jovem) Autoritário
Embora não seja propriamente o pai, o Juiz Turpin, responsável pela jovem Johanna, é um homem extremamente severo e autoritário, que mantém sua protegida trancafiada em casa.
  • Sublime x Grotesco
O filme contém diversos trechos, mas tomarei somente um.
Benjamin Barker x Sweeney Todd -> a mesma personagem, embora em fases distintas. Barker era um homem (como Todd menciona) tolo ["foolish barber"] (feliz ao lado de sua mulher e recém-nascida filha, de aparência saudável e considerado homem bonito (pelo senso comum). Sweeney Todd, por outro lado, era um homem deteriorado, amargo e 'louco'.
  • Egocentrismo
A obsessão de matar o juiz Turpin é uma delas, assim como a decisão de Mrs. Lovett de não contar o paradeiro de Lucy Barker, ou até mesmo o desejo do jovem marinheiro Anthony de seqüestrar Johanna para fugir com ela.
  • Supervalorização do sentimento
    • Ódio
A obsessão de vingança de Sweeney Todd pelo Juiz Turpin, que lhe roubou a vida, que se alastra pelo ódio pela raça humana, levando-o a matar todos os seus clientes.
    • Amor ("O Amor pode tudo")
O Amor à primeira vista de Anthony por Johanna, que o leva a apanhar, a formular modos de seqüestrá-la, a se passar de assistente de peruqueiro para resgatá-la num manicômio. E no fim, dentre os personagens, Anthony e Johanna são os únicos que sobrevivem para fugir de Londres juntos.
  • Escapismo: morte/loucura
Mr. Todd torna-se indiscutivelmente desequilibrado mentalmente depois de quinze anos na prisão por crime que não cometera. São vários os momentos no filme que Mrs. Lovett o impede de tomar atitudes precipitadas em virtude de sua obsessão. Fora isso, as últimas cenas do filme são um homicídio massivo, onde Mrs. Lovett, S. Todd, Lucy Barker, Turpin e Timothy Spall morrem.
  • Fotografia do filme:
Predominância do filtro azulado -> muito contraste entre o Claro x Escuro e vermelho extremamente chocante

Infelizmente, não posso comentar a trilha sonora =)
e por hoje é só.